28
Dez 11

Nascidas no meio do imenso Atlântico, as ilhas Açorianas não negam a sua origem vulcânica, bem patente na formação da Lagoa das Sete Cidades e da Lagoa do Fogo, na Ilha de São Miguel, a própria Ilha do Pico, o Caldeirão na Ilha do Faial.

Com uma actividade sísmica permanente, os Açores têm sofrido algumas erupções ao longo dos séculos, com destaque para os anos de 1563, no Pico do Sapateiro, e 1620 no Vale das Furnas, na Ilha de São Miguel; 1672 o Capelo, na Ilha do Faial; 1720 na Ilha do Pico; 1808, a Nazelina, na Ilha de São Jorge e novamente no Faial com o Vulcão dos Capelinhos em 1957, já para não  falar nas erupções submarinas.

Mas as suas ilhas têm sido também palco de violentos terramotos. Em 1522 a Vila de Praia de Âncora, em São Miguel, foi destruída. No ano de 1841 foi arrasada a Vila da Praia na Ilha Terceira. Alguns anos mais tarde em 1852 foi a vez de Ponta Delgada. Já mais recentemente lembramos o terramoto, que em 1980 danificou grande parte da cidade de Angra do Heroísmo.

O que nos traz à conversa hoje, mais propriamente à escrita é o terramoto de 1841 que assolou de forma dramática a cidade de Vila da Praia, reduzindo-a a um monte de ruínas, desalojando os seus habitantes, deixando-os  numa situação de extrema penuria e miséria.

O primeiro documento emitido pela Corte sobre o assunto, sai do Paço de Sintra, assinado pelo Barão de Tilheiras, com  data de 5 de Julho e refere-se-lhe nos seguintes termos: por occazião das repetidas oscilações terrestes, que ali se sentiram desde o dia 12 de Junho próximo passado, a que se seguio o espantozo terremoto, que teve logar no dia 15 e que destruio e arruinou completamente a Villa da Praia, produzinddo ao mesmo tempo gravíssimos estragos na Villa de S. Sebastião, em todas as povoações que ficam a leite entre esta ultima Villa e as Lages; do que resultou ficarem os habitantes de todas essas povoações reduzidos á maior consternação e miséria, pelos inormes prejuízos que sofrerão com o total desbarato das suas propriedades, e perdas de todos os objectos de uso domestico.

D. Maria II decretou e Joaquim António de Aguiar, tomou medidas de auxílio que se obterão da generosidade, filantropia e gratidão do Povo Portuguez generosidade de que são credores os habitantes da mencionada Ilha pelos apurados sacrifícios e muitos valiosos serviços, que prestárão em prol da Liberdade e da Independencia Nacional.

Determina, em nome desse auxílio, que em cada capital de distrito administrativo se estabelecesse uma comissão de cinco membros nomeadas pelo Administrador Geral respectivo, de entre cidadãos de mais reconhecida probidade, zelo e filantropia, de onde sairia o presidente e o secretário. O objectivo era angariar fundos para ajudar os açorianos a reconstruir as suas casas, as suas vidas.

A esta onda de solidariedade e auxílio respondeu a cidade de Leiria.  Em 12 de Julho, reuniram, no Paço Episcopal, os membros nomeados pelo Administrador Geral, José Crisóstomo Pereira Barbosa, Vigário Capitular e Governador Temporal da Diocese (eleito presidente), José de Faria Gomes e Oliveira, João Pessoa de Amorim, Luís Henriques d’Azevedo e António de Abreu Couceiro (eleito secretário). Estava assim constituída, a Comissão do Distrito de Leiria, que de imediato estabeleceu comissões filiais em todos os concelhos. Nas freguesias era aos párocos que cabia angariar fundos junto dos seus fregueses.

O reino atravessava um período difícil com o amargo sabor de uma guerra civil, que trouxe insegurança política, perseguições, surtos de movimentos de guerrilha, vandalismo, destruição, pobreza e desolação.

O aumento da décima e outros tributos, e também os invernos rigorosos e as consequentes más colheitas, provocaram nas populações, enormes dificuldades de subsistência evidenciando, por isso, a falta de condições para colaborar na acção desenvolvida. Azoia, Carvide, Cortes, Maceira, Monte Real, foram as freguesias de Leiria a manifestarem a sua total impossibilidade.

Outrossim de Monte Redondo informava o pároco, que os seus paroquianos não se sentiam devedores da ilha pela atitude tomada durante a guerra civil: vi má dispozicão nos ânimos dos póvos, que se achavam muito onerados com fintas, e tributos.

De Pedrógão Grande, apesar de todas as diligências da sua comissão filial, não conseguiram obter donativos, nem por altura da colheita da azeitona. Também Chão de Couce informou que os seus habitantes estavam condicionados aos rendimentos das colheitas dos seus frutos. Só um ano mais tarde conseguiu reunir alguns donativos.

Alcobaça, Alvaiázere, Batalha, Caldas, Óbidos, responderam de forma satisfatória. Produtos como milho, trigo, cevada, vinho, favas entre outros, eram donativos, que depois de vendidos, acresciam aos donativos em dinheiro.

Em 10 de Setembro já o presidente da Comissão de Leiria tinha em mãos 144$000 reis, disponíveis para serem entregues ao Administrador do Tabaco em Leiria, o meio de remessa utilizado, para o efeito, a pedido do Marquês do Faial, presidente da Comissão de Lisboa.

Todo este processo se prolongou por largos meses, com algumas insistências das Comissões. Várias quantias foram obtidas durante o ano de 1842 e uma última entrega em Maio de 1943, de São Martinho do Porto.

Não apurámos o montante dos donativos conseguidos no nosso distrito, nem esse era o nosso objectivo. Quisemos sublinhar tão só, que apesar de o oceano de permeio, a solidariedade, o espírito de entreajuda, a cooperação entre leirienses e açorianos, tem sido uma constante, como já ficou demonstrado por diversas vezes, na nossa História.

Fontes: Fundo do Governo Civil de Leiria, incorporado no Arquivo Distrital de Leiria

PT/ADLRA/AC/GCLRA/D/031

publicado por Ana às 19:27

A memória histórica de um país está no património que se conserva. Monumental, artístico, musical, fotográfico ou documental.

Conhecer essa memória passa não só pela conservação, mas pela organização e divulgação desse mesmo património. Neste contexto e no que se refere ao documental, a nossa experiência tem sido bastante gratificante e tem-nos permitido acrescentar alguns dados novos à história da nossa região.

Foi o caso da Casa do Distrito de Leiria, cuja documentação a partir de 1997 passou a fazer parte do espólio do Arquivo Distrital de Leiria. O trabalho de identificação e organização que desenvolvemos, deu-nos a conhecer uma associação, fundada em 1938 que funcionou na capital, que surgiu de um apelo do então Presidente da Câmara de Leiria, a uma comunidade de leirienses residentes em Lisboa, constituída por pessoas influentes e bem colocadas política, social e economicamente, provenientes dos mais diversos sectores profissionais. Médicos, advogados, notários, oficiais militares, engenheiros, comerciantes, banqueiros, professores, funcionários públicos, escritores, jornalistas, artistas entre outros.

Reuniu pela primeira vez uma Comissão organizadora em 8 de Fevereiro de 1938 no 3º andar do nº 126 da Avenida Duque de Loulé em Lisboa. O Clube dos 100 à Hora foi utilizado também pela referida Comissão até ficar definitivamente instalada na Rua Nova da Trindade no 2º andar do Nº 18, nas dependências da Associação dos Amadores de Música de Lisboa. Teve os seus estatutos aprovados em 21 de Novembro de 1938 por alvará do Governo Civil de Leiria.

Foi o seu primeiro presidente O Contra-Almirante Joaquim de Almeida Henriques, notável pela acção que desempenhou na Marinha e a figura principal do arranque inicial da actividade desta agremiação.

Manteve desde o primeiro dia uma intensa actividade cultural, uma interventiva acção social e uma sistemática pressão junto do poder político. Entre conferências, serões culturais, exposições, bailes, excursões, homenagens, a Casa foi também mentora do I e II Congressos das Actividades do Distrito de Leiria. Esteve ainda na origem da resolução de problemas e situações que muito contribuíram para o progresso da sua região. Cessou em 1953.

Foram suas congéneres, entre muitas outras, a Casa do Alentejo, a Casa de Entre Douro e Minho, a Casa de Lafões, a Casa de Coimbra, Casa das Beiras, a Casa de Tomar, a Casa dos Açores.

Estas agremiações constituíam-se no seio de comunidades regionais, residentes em Lisboa, tendo por base a convivência dos seus patrícios, a divulgação dos seus valores, costumes, riquezas e a defesa dos interesses da sua região, junto do poder político do Estado Novo. Era o regionalismo a acordar reagindo à reforma administrativa consignada no Código de 1936.

A união destas associações, num total de 25000 sócios, deu origem a um movimento do qual nasceu o Conselho Superior do Regionalismo Português, que actuava como uma Federação de todas as Casas Regionais, actuando em sua defesa e representação

As relações entre estas associações eram cordiais e bastante salutares. Convidavam-se a participar das iniciativas de cada uma delas, promoviam sessões e eventos alusivos às regiões das outras Casas.

De entre a documentação da Casa de Leiria recolhemos um convite da Casa dos Açores  datado de 4 de Fevereiro de 1941, que passo a transcrever: Realizando o Sr. Dr. Pedro de Aguiar, ilustre Director dessa Casa, uma conferência no próximo dia 8 do corrente, pelas 22 horas na sede da Casa dos Açôres, sob o titulo “As duas ilhas pequeninas” muito nos honraria V. Exª. com a sua presença e bem assim os restantes Directores da Casa de Leiria. Os sócios da vossa Casa, que queiram assistir, podem faze-lo mediante a simples apresentação do seu bilhete de identidade. À conferência segue-se baile e o traje é de cerimónia. Aproveito o ensejo para endereçar a V. Exª. Os protestos da mais elevada consideração e subscrevo-me. É assinado pelo presidente da direcção Francisco Soares de Lacerda Machado.

No espírito de troca e partilha, as Casas enviavam, anualmente, umas às outras, cartões de livre entrada, para os diversos eventos que organizavam. A exemplo, em 2 de Março de 1951 a Casa do Distrito de Leiria envia à sua homóloga dos Açores, o seu cartão. Assina o presidente da direcção José Rodrigues de Matos.  

Continuamos a constatar que as relações entre Leiria e os Açores são de longa data e que os laços de amizade e cooperação se têm revelado profícuos e de grande significado para as duas regiões.

São estas associações fontes documentais interessantíssimas e a Casa dos Açorespoderá será também, um manancial de surpresas que valeria a pena conhecer.

publicado por Ana às 19:13

No seguimento do post anterior não resisti a trazer e apresentar uma pessoa, praticamente desconhecida, nos dias de hoje, mas que desempenhou e teve uma acção importantíssima no meio social leiriense no início do séc. XX. Refiro-me a  Maria Laura Lopes Vieira Oliveira.

Filha de Dr. Adriano Xavier Lopes Vieira  e de Ana Bárbara Charters d’Azevedo Lopes Vieira, nascida em Leiria a 7 de Agosto de 1878, bem cedo se começou a distinguir pelo seu carácter pouco vulgar. Apesar de apresentar um ar altivo, era de uma simplicidade e de uma bondade sem limites. Afável com todos, ricos ou pobres, tinha contudo, uma tendência e uma preferência natural para ajudar e resolver os problemas dos mais carenciados, fosse de forma moral ou material.

Estava sempre disponível para organizar festas de beneficência, integrar comissões associativas de forma altruísta, que a sua actividade e prestígio enriqueciam.  Quando algum conflito se revelava ou censuras e críticas malévolas se manifestavam, Laura, com o seu bom senso e nobreza de sentimentos,  com inteligência e rectidão, resolvia-os de forma assertiva e consensual.

Seguia os preceitos religiosos de forma convicta com uma fé inabalável, mas longe de fanatismos.

Em família era considerada um modelo, uma “fada do lar”, era o centro, a responsável pelo ar saudável e repousante que se respirava no seu lar. Recebia com elegância e simpatia. Sempre disponível para quem lhe pedia conselhos, fossem familiares ou pessoas mais afastadas. Cuidar, proteger era uma constante da sua vida.

Apesar de sempre muito ocupada, dedicava alguns momentos à pintura. Era considerada talentosa, mas a sua modéstia não permitia exibi-la, cingindo a sua arte apenas à decoração da sua casa.

Senhora das mais ilustres da alta sociedade leiriense, era casada com o Dr. Luís José da Câmara Oliveira,  e teve a fatalidade de falecer bastante nova, no verão de 1918.

O comércio encerrou em Leiria, no dia do seu funeral. As pessoas mais representativas da cidade, de todas as classes sociais, associaram-se à família enlutada.

Tem descendentes, que residem em Leiria, que como ela, têm prestigiado a nossa cidade:  Drª. Laura Dias, ilustre professora de matemática e Dr. Tomás de Oliveira Dias,  funcionário público, advogado e administrador de empresas, dedicado a causas públicas.

Tivemos o “nosso primeiro contacto” quando organizávamos o acervo documental da Cruzada das Mulheres Portuguesas em Leiria, depositado no Arquivo Distrital de Leiria e a encontrámos como presidente da associação.

Hoje e porque já passou quase um século sobre a sua existência, Leiria deve recordá-la e dar a conhecer o seu trabalho, o seu carácter, a sua individualidade e a sua imagem.

 

 

publicado por Ana às 18:20

22
Dez 11

Recuamos aos primórdios do séc. XX e ao começo da 1ª Grande Guerra. Na sequência deste conflito e a pensar nos nossos territórios em África, cobiçados pela poderosa Alemanha, Portugal decide aderir ao apelo dos nossos aliados com um Corpo Expedicionário Português (CEP), juntando-se às tropas aliadas, sob o comando de uma brigada inglesa, em Flandres, onde permaneceram longos meses, em condições adversas e debaixo de bombardeamentos sistemáticos.

De imediato nasceu em Lisboa um movimento liderado por Elzira Dantas Machado, mulher de Bernardino Machado, então Presidente da República, denominado A Cruzada das Mulheres Portuguesas, cuja missão era prestar assistência às vitimas de guerra, tanto aos combatentes como às suas famílias, com fins estritamente humanitários.

Sob a orientação da Cruzada de Lisboa, foram criadas Comissões por todo o país e Leiria não perdeu a oportunidade de se assumir cooperante e voluntariosa.

Para o efeito, foi convidada pelo Governador Civil de Leiria para presidir, Maria Laura Charters d’Azevedo Lopes Vieira de Oliveira, pelo seu carácter altruísta, inteligência, bom senso, que  constituiu uma comissão com Margarida Quadros Sampaio Rio, Maria José Pestana Cortez  Pinto, Maria Bárbara Bordalo, Sara Pires Campos de Azevedo Batalha, Maria de Anunciação Costa Santos, Ermelinda Cacela Gaio, Conceição Pereira dos Reis, Maria da Nazaré Teixeira da Silva, Aurora Gandra, Maria José Nogueira Jordão, Alcina Barreto Pereira dos Reis, Constantina Falcão Barbosa, Maria Henriqueta Mascarenhas e Mesquinha.

Com esta comissão colaboraram muitas outras mulheres leirienses,  associando-se com elevado espírito de solidariedade e amor ao próximo, conscientes que a sua acção  seria imprescindível. O objectivo era angariar donativos para fazerem face às principais necessidades dos militares e das suas famílias, em especial as mais carenciadas e dotá-las de bens essenciais, nomeadamente roupa e calçado.

Primeiramente e para obter os primeiros recursos materiais deliberaram obter cotizações através de associados. Desenvolveram acções diversas para angariar receitas desde sessões animatográficas,  no Teatro D. Maria Pia, com sessões de cinema, quermesses no Jardim Público, eventos culturais e outros.

Destaque para a ajuda que esta Associação prestou aos portugueses prisioneiros, na Alemanha onde eram miseravelmente mal tratados, ao enviar-lhes cobertores, camisolas e meias de lã, boinas, ceroulas, pois a falta de agasalho era um dos grandes sacrifícios a que estavam sujeitos.

Foram estas mulheres fontes de conforto como Madrinhas de Guerra ao escreverem cartas aos combatentes, tendo também por sua conta gerir a correspondência entre os militares e as famílias, a falta de notícias, receberem as suas reclamações, saber dos atrasos dos subsídios que os mais necessitados tinham direito a receber, etc.

Esta Subcruzada de Leiria nasceu a 6 de Maio de 1916 e cessou a sua actividade em Junho de 1919. Enfrentou algumas situações complicadas mas a que mais a marcou foi o falecimento da presidente Maria Laura Lopes Vieira e Oliveira, figura de destaque no meio social leiriense, que deixou um grande vazio nas actividades de carácter social e em diversas organizações, prestigiando-as.

Foi então substituída por Margarida Quadros Sampaio Rio.

Para mais informação a Folheto Edições & Design publicou A Cruzada das Mulheres Portuguesas de Leiria, da autoria de Ana Bela Vinagre. Leiria, 2008.

publicado por Ana às 22:19

24
Jul 11

 

 

Nasceu o rio Lis junto a uma serra

No mesmo dia em que nasceu o Lena;

Mas com muita Paixão, com muita pena

De o seu berço não ser na mesma terra

 

Andando, andando alegres, murmurantes,

Na mesma direcção ambos corriam;

Neles bebendo, as aves chilreantes

Contavam esse amor que ambos sentiam.

 

Um dia já espigados, já crescidos

Contrataram casar, de amor perdidos

Num domingo, em Leiria de mansinho…

 

Mas Lena, assim a modo envergonhada

Do povo, foi casar toda enfeitada

Com o Lis mais abaixo um bocadinho

                            José Marques da Cruz

                                 n.15-11-1888

                                 f. 23-12-1958

 

 

Este soneto inspirou, de forma magnífica, o professor e artista Augusto Mota, que nos anos 60, já gozava de um grande prestígio na região e além fronteiras, num trabalho de grande beleza, simplicidade e sensibilidade, num beijo celebrado entre o Lis e o Lena, envolto pelos verdes e sussurrantes pinheiros, sob o olhar do sol, rubro de vergonha perante tanta intimidade, só testemunhado pelas “aves chilreantes”, com o castelo, ao longe, a abençoá-lo.

O painel decorativo «Lenda do Lis e Lena» (1,80 x 3,60 m) foi um trabalho encomendado em 1965 pelos proprietários do café Colipo, que em breve iria abrir, tendo deixado o motivo ao gosto do autor, pois havia necessidade de decorar uma grande parede para dar mais vida e cor ao ambiente.

O café funcionava onde se encontra hoje a loja do Ponto Negro, na avenida Heróis de Angola. Foi pintado sobre 6 placas de Omnilite, nome comercial de um  produto para a construção civil, fabricado na Martingança, que era feito de aparas miudinhas de madeira, agregadas e prensadas com cimento. Era um material isolante e ignífugo.

Com o encerramento do café, o painel foi desmontado, acabando o seu tempo de vida activa como arte pública.

Este painel foi o rosto de um postal publicado pela Câmara Municipal de Leiria numa Edição Comemorativa do Centenário do Nascimento do poeta Leiriense Marques da Cruz (1888-1958), que logo esgotou, dando lugar a uma reedição.

Mais recentemente, em 2006, a Junta de Freguesia de Leiria, editou uma pasta em cartolina, no tamanho A4, em cuja badana larga foi impressa a biografia do poeta, da autoria do Engº Carlos Fernandes. Dentro da pasta está a reprodução  do painel e, por baixo, o soneto do poeta Marques da Cruz que serviu de inspiração ao professor Augusto Mota. Foi feita uma edição de 5 mil exs., já há muito esgotada.

Existe uma reprodução em azulejo, autorizada pelo autor, numa vivenda na Cruz da Areia, pertencente a Passinhas Marques, que também foi professor da Escola Industrial e Comercial de Leiria, painel pintado pela ceramista leiriense Leonor Ferreira, antiga aluna da mesma Escola.

Mais recentemente, ofereceu o autor, a uma familiar de Lisboa, uma reprodução com metade das dimensões do original, por si retocada por meios informáticos e impressa em tela, autorizando, posteriormente, idêntica reprodução, a pedido de um antigo aluno da Escola, que exerce a sua actividade profissional em Espanha, para decorar a sua casa em Leiria, onde vive a sua família. Estas reproduções foram, depois de impressas e emolduradas, assinadas pelo autor, como se de um original se tratasse.

O painel foi desde logo, um sucesso, bem representativo da arte protagonizada por Augusto Mota, quiçá, um dos trabalhos com maior visibilidade que terá produzido.

publicado por Ana às 20:58

04
Jun 11

Hoje dança-se quase todo o tipo de ritmo desde o “velho” tango que no início do século XX se propagou aos salões de dança de todo o mundo, à “bela” valsa, passando pelo fox-trot, pelo  xá-xá-xá , que contemporizaram com eles e o twist e o yé-yé que foram as grandes revoluções dos anos sessenta.

Mas danças houveram que caíram em completo esquecimento. O minuete, dança do séc. XVIII, nasceu em Poiton, antiga província de França e teve um grande impacto por todo o país, sobretudo no tempo de Luís XIV. Os salões fervilhavam de damas exibindo grandes tocados, seios desnudos e cavalheiros de perucas brancas e sapatos de enormes fivelas, como ditava a moda de então.

Elegante, miudinho, de movimentos demorados, o minuete era um  verdadeiro “tratado” de arte, desde a colocação do pé, o curvar o corpo, a elevação dos braços, tudo com muita elegância e graciosidade. A música assentava no compasso ternário, andamento vagaroso para acompanhar adequadamente os movimentos da dança.

As mulheres deslumbravam. Ver uma bela dama a dançar o minuete era caso de estontear cabeças, dizia o Barão de Santo André, em 1897. Margarida de Borgonha notabilizou-se na sua execução. D. João de Áustria, vice-rei dos Países Baixos deslocou-se a Paris para a ver dançar.

Muitos escritores de então encontravam no minuete assunto para as suas páginas onde dissertavam, cativando os seus destinatários. Verdadeiros coreógrafos se dedicaram a esta arte, tornando-se verdadeiros mestres.

Com a existência de algumas escolas de “Danças de Salão”, que têm contribuindo de forma significativa a prática de “velhas” danças, porque não recuperar o minuete?

publicado por Ana às 22:02

Confesso que sinto alguma frustração por não saber andar de bicicleta. De tudo a que me propus aprender na vida, foi a única que ficou por concretizar. E sinto pena… deve ser uma sensação de liberdade, para além de ser uma óptima terapia física e psíquica.

O velocípede remonta aos finais do século XVIII. Diríamos que de forma muito empírica e de má construção, contudo alguns deslizaram pelas ruas de Paris utilizados por pessoas elegantes que eles próprios moviam. O conde Sivrac está-lhe associado.

Ao longo do séc. XIX contribuíram, para aperfeiçoamento do veículo, Barão Dias, Macmillan, Ernest Michaux, entre outros.

Foi considerado um factor de perigo como se lia em 1874 na Associação Scientifica de França que dizia: “Os médicos franceses e ingleses têm tratado nos últimos tempos uma grande variedade de ferimentos resultantes do velocípede, dos quais alguns provêem dos novos perigos  que oferecem estes instrumentos de locomoção, pela posição elevada do cavaleiro, principalmente nas suas relações com as leis do equilíbrio. Os ferimentos mais comuns tem sido a deslocação das extremidades superiores, especialmente do radius. Algumas fracturas do cubitus têm também aparecido, com graves distensões, ou entorses nos pulsos”.

Mas os benefícios também acabaram por ser reconhecidos e no virar do séc. XIX para o séc. XX, na opinião dos entendidos a bicicleta já era considerada muito eficaz contra a obesidade, gota, nefrite, dispepsia e no tratamento de problemas cardíacos e  pulmonares.

O ritmo cadenciado e simétrico contribui, outrossim, de forma favorável para uma boa circulação e ainda contra a acção oxidante do organismo.

Como forma de desporto a bicicleta deu origem ao ciclismo que nasceu na Inglaterra, em meados do séc. XIX.

Hoje a modalidade reveste-se de variadas formas: estrada, BTT, ciclo turismo, montanha.

Também numa vertente artística a bicicleta integra, muitas vezes, espetáculos de circo em acrobacias de duas rodas, ou apenas de uma só, a recordar o velocípede inventado por um senhor alemão, chamado Hobby.

publicado por Ana às 21:23

02
Jun 11

A revista ABC que circulou pelo país, nas primeiras décadas do séc. XX, delicia-me pelo conteúdo dos seus artigos, pelos desenhos, pelo estilo, pela apresentação. Enfim, agrada-me.

Foi um dos seus números[1], que me conduziu até Maria Amália Vaz de Carvalho, a primeira humorista do nosso país, sob o pseudónimo Luzia,  oriunda de um extracto  elitista da sociedade portuguesa, extremamente culta, viajada, inteligente, de um bom gosto, que as suas obras deixam antever.

Os Que se Divertem, que esgotou num curto espaço de tempo e bem aceite no mundo literário cinzento de então, foi o seu primeiro livro, cujo êxito a levou a escrever de seguida Rindo e Chorando. Mais tarde vieram a lume Cartas do Campo e da Cidade e as Cartas de uma Vagabunda.

Diz-nos o autor (?) do citado artigo que as  suas cartas podem, sem favôr, pôr-se em paralelo com algumas de entre as melhores que Eça Queiroz subscreveu.

A sua obra teve a graça de ver retratadas figuras lisboetas das mais representativas, tipo “novas-ricas”, escravas da moda e outras, não de forma jocosa ou ofensiva, mas com espírito e arte na condescendência e manifesta simpatia. Dizia Amália: Para ser grande na arte é preciso, antes de tudo, ser sincero. Nunca ninguém logrou traduzir bem as dores que não sentiu. Esta terá sido a chave do seu sucesso.

Escreveu ela sobre o riso[2]:

O que distingue o homem de todos os outros animais da criação, é que só o homem ri!

Isto basta para afirmar a significação do riso.

Depois, nós temos só uma maneira de chorar, que debaixo da pressão angustiosa e dilacerante da dor, caímos todos prostrados no mesmo abatimento sombrio, que, nobres ou plebeus, ricos ou pobres, crianças ou adultos, génios ou mediocridades, só temos as lágrimas como supremo alívio ou como suprema expressão, temos em contraposição tantas maneiras de rir quantas são as diferenças que nos distinguem e separam uns dos outros.

Há o riso das crianças: - eflúvio visível d alma dos anjos.

Há o riso das virgens: - reflexo ideal de um paraíso onde a árvore do mal ainda não lançou as suas sinistras raízes.

O riso dos velhos: - uma luz feita de doçura, de experiência e de bondade, um conselho mudo a que ninguém resiste, o perfume de uma flor murcha, que evoca diante do nosso olhar, mundos que se esvaíram.

O riso das mães: - a natureza formou-o da alvura irada das suas pérolas, da claridade rubra e prometedora das suas auroras, de tudo que há de mais carinhoso nos seus seios ubérrimos, de tudo que há mais puro nas suas graças estivais. É uma nesga de céu, entrevista através de uns lábios de mulher.

O riso das almas satisfeitas: - consolação e esperança dos que procuram insaciáveis alguma coisa que nunca houve e que nunca haverá.

O riso dos maus: - face aberta de um abismo, no fundo do qual bramam com fragor soturno as águas lodosas de todas as paixões indomadas.

Acima de todos estes risos e feito de todos os elementos que os constituem e de muitos outros que lhes faltam, vibra, estridente, poderoso, derramando em torno a sua influência fecunda, o riso enorme que abala os tronos pela base, e que destrói os preconceitos e os ridículos pela raiz.

Chama-se a este: o riso do génio.

Todos nós o conhecemos mais ou menos.

D. Maria Amália Vaz de Carvalho



[1] Nº 480 de 26-09-1929

[2] Almanach de Lembranças, 1906

publicado por Ana às 00:00

01
Jun 11

O sonho de ter automóvel é tão antigo como o seu aparecimento e bem cedo começou a fazer parte do imaginário de algumas pessoas.

No encalço desse sonho surgem na década de 50, em Leiria, grupos de jovens rapazes que, em sociedade, adquiriram o seu carro. Em grupos de três, quatro ou mais, numa faixa etária entre os 18 e os 30 anos, alguns rapazes aventuraram-se na aquisição do seu Ford, Citroen, Overland que pela sua irreverência, espírito de aventura e ainda sem encargos familiares, desejavam sair do seu círculo restrito e limitado e procurar emoções e divertimento, fora de portas.

Tratava-se de uma “sociedade” porque o valor da compra do veículo era dividido por todos, bem como as despesas da gasolina e as reparações (apenas as peças) porque a mecânica era assegurada por um dos elementos. Quando um deles por qualquer motivo se via impedido de ir, para que a saída não pesasse no orçamento da sociedade, convidavam um amigo interessado que participava na despesa do combustível.

 

Dentro destes moldes foi um desses grupos constituído por Armando Santos, Augusto Constantino Lopes, António Carlos Santos Morgado, César Faustino da Silva Lopes e Artur, alguns dos quais bancários do BNU, que em regime de sociedade, adquiriram um Ford A, descapotável a um dos proprietários da Baquelite Lis. Eles próprios o repararam e os estofos, habilidosamente arranjados por Mercedes Castanho, uma modista da praça de Leiria, cunhada de Armando Santos. Tudo mão de obra caseira. E era vê-los todos os domingos na eleita Praia de São Martinho do Porto.

Como é evidente incidentes e peripécias aconteceram. Acidentes, avarias… Contam que num dos regressos a Leiria o Ford decidiu verter águas e só não ficaram empanados porque lhe aplicaram  um pão que havia sobejado do lanche, permitindo-lhes chegar ao destino sãos e salvos. "Morreu" o Ford às mãos de Armando Santos que depois de um aparatoso acidente, acabou num ferro velho. (Foto cedida por Armando Santos).

Um outro grupo era formado por Filipe Silva, António Silva, José Silva, Vítor França e outro, que experimentou a sensação de liberdade e aventurismo, com um Ford A, comprado a um elemento da família Marques da Cruz. Tinha a particularidade de ter uma roda suplente maior que as do próprio carro. Não tinha macaco nem chaves de rodas. Nunca tiveram um furo. Foi vendido mais tarde para um ferro-velho de Torres Novas, tendo sido substituído por um Citroen ( Arrastadeira) de 11 cavalos.

Santarém, Tomar, Figueira da Foz eram, entre outros, os destinos preferidos dos fins de semana, que passaram a ter outro sabor. A sexta-feira à noite era, sem dúvida o momento mais desejado depois de uma semana de trabalho. Leirienses de gema, procuravam outros lugares, onde não eram conhecidos, para dar largas aos seus devaneios boémios e onde se faziam passar por aviadores da Base Aérea de Monte Real,  para impressionar os locais que frequentavam, conquistando alguns corações femininos mais desprevenidos.

A moda pegara e outros grupos surgiram. O Carro dos Oficiais, ou O Carro dos Militares, de cor azul  pertencia a uma sociedade de oficiais do Quartel de Artilharia 4.

 

Famoso ficou também o Overland amarelo descapotável que pertencia a Óscar Alvares Pereira, Nini Pereira, João Alves, António Varatojo, Joaquim Ramalho, Saraiva, Joaquim Gordalina, Álvaro Pereira, José Pereira. Esta "relíquia" ainda vive.

(Foto cedida pelo Sr. Mó Hingá)

 

 

Estes automóveis estacionavam habitualmente no largo da Sé e as reparações de alguns deles estavam a cargo da Oficina dos Hingás.

O que foram outrora realidades, hoje não passam de boas recordações.

publicado por Ana às 23:07

12
Abr 10

O Teatro em Leiria teve uma actividade intensa desde o princípio do séc. XIX, com a fundação de vários teatros, o primeiro dos quais fundado por um inglês W. Young, que veio para Portugal durante as invasões francesas, em 1818, designado Teatro do Relego, na Rua de S. Brás, ao Terreiro.

Ainda e depois do Teatro da Palha, do Teatro do Farelo, do Teatro de S. Pedro, do Teatro Moderno e do Teatro do Cêbo, Leiria vê-se dotada de uma sala de espectáculos das melhores da província -  o Teatro D. Maria Pia que marcou o período áureo da arte da representação.

Os protestos e reclamações da população face à inexistência dum teatro moderno e bem localizado que respondesse cabalmente às aspirações locais e que dignificasse a cidade, teve eco num grupo de leirienses liderado por Miguel Joaquim Leitão. Foram seus colaboradores Barão de Salgueiro, Tomás de Aquino Vitor, João Lúcio Lobo e António Rino Jordão.

Edificado no campo de D. Luís, actual largo de Goa, Damão e Dio, apresentava uma arquitectura simples, mas o espaço interior era de elegância e um luxo, de bom gosto, com um tecto ornamentado a dourado, com um pano de boca lindíssimo importado de Milão, um palco amplo, camarins espaçosos. A sala em ferradura era iluminada com  numerosos candelabros suspensos dos camarotes, cujos corrimões forrados a veludo carmesim, lhe emprestavam um toque de incomparável requinte.

Foi lançada a primeira pedra no dia 3 de Outubro de 1878 e inaugurado em 8 de Dezembro de 1880, com um brilhante espectáculo, produzido e interpretado por artistas leirienses. Teve os seus estatutos aprovados por alvará do Governo Civil de Leiria, em 2 de Julho de 1880.

O D. Maria foi o pólo cultural, educacional, beneficente da cidade, por excelência.

As melhores companhias de teatro foram aplaudidas pelas suas frisas,  camarotes e plateia. Os mais conceituados artistas nacionais e muitos internacionais pisaram o seu palco, mas também artistas leirienses ofereceram espectáculos de grande qualidade, que levaram ao rubro o seu público.

Também diversas peças de alguns autores da cidade obtiveram o maior sucesso.  Leiria - Marca, Água da Fonte Grande, de Horácio Eliseu, as operetas Alda e a Condessa Helena, de João Pereira Gomes, autor da letra e de José Zuquete, da parte musical, foram alguns deles.

Ao longo de muitas décadas a imprensa de Leiria dedicou inúmeros artigos sobre todos os acontecimentos e espectáculos que por ele passaram e que nos dão uma panorâmica da sua actividade e importância que ele teve na sociedade leiriense.

Acolheu para além do teatro, récitas, concertos, operetas, congressos, exposições, promovidos pela própria associação ou sob a forma de cedência a instituições públicas e privadas. O aparecimento do cinema veio também dinamizar a actividade do Teatro.

Após algumas décadas, a lotação deficitária, a degradação do edifício e a situação financeira decadente, leva à tomada de medidas que levantou polémicas, provocou indecisões, e até foi equacionada a sua demolição. Reagiu a esta proposta um grupo constituído por Adelino Henrique Pereira de Faria, Engº Alberto Martins d’Azevedo Zuquete, Albino de Paiva Rebelo, Tenente Álvaro Pires de Miranda, António de Azevedo Batalha e o General José Franco, Rui Acácio da Silva Luz entre outros.

Alterados os estatutos para uma reestruturação da Associação  e melhor adaptação aos tempos modernos, a nova administração, assume o projecto com novo fôlego e uma significativa melhoria da situação económica e financeira.

Mas os anos quarenta trazem o sonho de construir um grande teatro. A falta de segurança do edifício, algumas vezes encerrado por ordem da Inspecção dos Espectáculos, obriga a Associação a elaborar um projecto de obras. O edifício estava velho, a sua lotação não se coadunava havia muito com as exigências da cidade. Por outro lado, não havia na época  sensibilização para uma política de conservação do Património Cultural. Estes e outros factores levaram à projecção de um Cine-teatro a construir-se no local do velho teatro, obrigando assim à sua demolição.

O último espectáculo teve lugar nos primeiros dias de Janeiro de 1958, durante o qual foi anunciado a desmantelamento do espaço.

Até ao novo projecto ganhar corpo, foi alugado um barracão, para onde foram transferidas as cadeiras, o restante equipamento e todos os maquinismos cinematográficos. Ali funcionou desde 12 de Janeiro do referido ano, assistindo a um processo doloroso, numa sucessão de conturbados episódios, até à inauguração do Teatro José Lúcio da Silva.

 

 

publicado por Ana às 22:07

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