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Haverá muitos leirienses que ainda guardam na memória o Teatro D. Maria Pia, em Leiria. Mas quem nasceu já na segunda metade do Séc. XX, não teve essa oportunidade. Aqui fica uma descrição da sua inauguração, relembrada por altura da comemoração do 60º aniversário, realizado em 8 de Dezembro de 1940 e publicado no jornal O Mensageiro de 7 de Dezembro de 1940.

Leiria inaugurou há poucos dias [9 de Dezembro de 1880] o seu novo teatro, um belo teatro (…). Vamos dar uma rápida notícia dêste novo teatro, um grande melhoramento na cidade de Leiria, notícia cujos apontamentos devemos à obsequiosa amabilidade do sr. L. A. Dos Santos.

O teatro de D. Maria Pia foi edificado no campo de D. Luiz I, correndo paralelo ao antigo convento de Sant’Ana, com o qual forma uma vasta e espaçosa rua.

A arquitectura externa do teatro é simples, em compensação o teatro por dentro é dum luxo extraordinário, duma elegância que o coloca acima de todos os teatros de província. No rez-do-chão há um vasto salão que serve de vestíbulo comunicando com a casa do bilheteiro, o botequim e com elegantes escadas que conduzem à parte superior do edifício. Entretanto por esse salão encontra-se um bonito arco, e logo depois as escadarias amplas dos camarotes e ao fundo a porta que abre para a platéa, tendo na parte superior o emblema da comédia e escrito em letras abertas em talho dourado o nome do teatro. Na 1ª. Ordem há 21 camarotes, largos, com belas coxias que dão para um vasto salão de entreactos tendo nos topos a “toilette” e um botequim especial. Na 2 ordem há igual número de camarotes. A placa tem 132 cadeiras, e 100 lugares de geral, e é circundada por 16 frisas.

A sala é em feitio de ferradura, é elegantíssima, perfeitamente iluminada por numerosos candelabros suspensos dos camarotes, todos gradeados em florões dourados e corrimãos estofados a carmezim vivíssimo, dum belo efeito. O tecto do teatro é cheio de ornatos e arabescos dourados, e o pano de boca, pintado em Milão, e oferecido ao teatro pelo accionista de Lisboa sr. José da Silva Bento e Sousa, é magnífico e representa uma cortina sobrepujada por um docel a que se abriga um grupo de crianças sob as bandeiras portuguesa e italiana, alegoria à caridade régia da augusta princesa de quem o teatro tem o nome. O palco é vasto, tem camarins espasoços e já possue um sofrível número de vistas pintadas pelos cenógrafos Rocha e Barros. O teatro foi edificado por uma sociedade de que foi a alma e o iniciador, o sr. Miguel Joaquim Leitão, aos esforços, e trabalhos infatigáveis dos quais  Leiria deve hoje o seu belo teatro. A sociedade é por acções espalhadas por muitas pessoas influentes da localidade e de outros pontos do país. A primeira pedra para a edificação do teatro foi lançada, com grande pompa, no dia 3 de Outubro de 1878, assistindo a esta solenidade a comissão promotora, a câmara municipal e outras autoridades.

A inauguração realizou-se com todo o brilho na noite de 8 de Dezembro, com um espectáculo desempenhado por curiosos, abrindo com o hino de El-Rei D. Luiz, executado pela orquesta, e um hino de saudação a S. M. a rainha escrito pelo sr. Xavier Rodrigues Cordeiro, poeta natural de Leiria, e cantado pela sociedade dramática. A peça de inauguração deste teatro, construído em dois anos e um mês, foi o drama “Abel e Caim” do falecido escritor António Mendes Leal.

O Teatro D. Maria Pia foi o centro cultural de Leiria, por excelência, durante cerca de oitenta anos. Recebeu teatro, cinema, concertos musicais, recitais, exposições e outras manifestações de arte, sob os aplausos de um público não só da cidade, mas de outros concelhos, que pela qualidade e fama dos seus espectáculos, acorriam frequentemente a ele.

A degradação do edifício e a necessidade de ampliar a sua lotação, levantou polémica, gerou negociações, mas a sua demolição em 1958 foi inevitável.

Foi uma perda lamentável. Hoje por certo seria reabilitado.

publicado por Ana às 17:56
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4 comentários:
Olá amiga. Fiquei deliciada com a descrição que fazes do Teatro D. Maria, e apesar de ter nascido já na segunda metade do século, lembro-me dos taipais que envolviam o edifício, quando se preparava a sua demolição. Recordo o branco da parte cimeira que sobressaía desses taipais e é pena que na altura não houvesse a preocupação de recuperar o património, pois como tu própria referes, hoje provávelmente não teria sido demolido, pese embora actualmente ainda se verifiquem muitos atentados contra obras que o passado nos legou, mas cujos interesses económicos se sobrepõem, perdendo -se assim algumas "linhas" da nossa história.
EU
ana lemos a 19 de Fevereiro de 2010 às 15:05

Ola Ana sou um Leiriense nascido em 14 de Novembro 1943 andei na escola de Santo Estevão junto ao Castelo form meus professores Sr Pinto Galamba Guimaraães Rolo Santa Rita e nos anos 60 matrcole-ime na aescola Industrial no curso noturno de aperfeiçoamento proficional de electricidade Eu fui um dos muitos que ao Domingo alinhava ao longo da parede para uma borla caso alotação não fosse esgotada refiro-me ao Teatro D. Maria Pia em Leiria.Minha avó vendia castanhas na esquina virada para o Banco Ultrmarino ea joja de ferragens Fernandes. Fui criado no mercado de Santana porque a Srªque me criou era filha da vendedeira de castanhas e vendia fruta no mercado. Trabalhei nos Serviços Municipalizados no tempo do EgºAfonso Lemos Proensa mais tarde Presidente da Canara Saì de Leiria em Novembro de 1965 estive 30 anos na Africa do Sul estou actualmente em Loule Algarve
Manuel Silva a 31 de Maio de 2011 às 10:03

Por acaso não tem nenhuma informação adicional sobre o José da Silva Bento e Sousa referido no post? Obrigado Rui Mendes
Rui Mendes a 28 de Abril de 2011 às 16:30

De momento não possuo informação sobre esse accionista até porque segundo o artigo ele vivia em Lisboa. Contudo o fundo documental da Associação do Teatro D. Maria Pia encontra-se no Arquivo Distrital de Leiria e está consultável.
Para ter uma noção do que existe na referida documentação poderá ir ao site do referido Arquivo.
Ana a 30 de Abril de 2011 às 22:30

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