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A assistência a crianças expostas ou abandonadas, em Portugal, esteva a cargo das Câmaras e das Misericórdias.

Para evitar o abandono de crianças em lugares públicos, à porta das igrejas, ou até na rua, surgiram  ao longo da nossa História espaços próprios para recolher crianças enjeitadas. O mais antigo data do séc. XII, em Lisboa. Um Hospital de Meninos, em Santarém no ano de 1321 e uma Casa de Meninos ou Criandário criado por D. Manuel em 1504, adstrito ao Hospital de Todos os Santos, para além de muitos outros.

Muito mais tarde pela mão de D. Maria I foi criada oficialmente através de uma circular para que passasse a existir Casa da Roda "em todas as cidades e vilas do Reino", apesar de já existirem e ser uma prática em muitas localidades portuguesas.

Como e onde funcionavam? Nos conventos eram colocados uns cilindros giratórios com uma abertura onde era colocada a criança pelo lado externo e recebida no interior pela rodeira, sem haver qualquer contacto com o exterior, garantindo total anonimato.

As Rodas eram colocadas sempre em locais discretos.

A criança, recém-nascida, era recolhida com os objectos que o acompanhavam os quais eram descritos, identificados e guardados, cumprindo-se as disposições que houvessem por escrito, nomeadamente o nome, ou indicação dos padrinhos. Na ausência destas indicações a criança era normalmente baptizada com o nome do santo venerado no dia que era recolhido. Mas nem sempre era assim.

O estigma do exposto nascia com o seu próprio nome. Muitas vezes as crianças recebiam os nomes mais atrozes. Duma pesquisa efectuada numa freguesia do distrito de Leiria, entre 1856 e 1865, colhemos alguns e cito: Crisogono, Anta, Lidra, Aoncio, Abia, Birgila, Poncimio, Nabucodonosor, Revogata, Palerma, Aristobulo, Conegunda, Esperidião, Parachedes; Optato, Longinhos, Clororeo, Eutíquio, Catulino, são só alguns dos que seleccionámos.

Que razões levavam os pais a abdicar dos seus filhos? Poderemos invocar dificuldades económicas, nalguns casos, mas crê-se que grande percentagem dessas crianças eram filhos ilegítimos,  fruto de amores ilícitos, sobretudo de classes sociais mais elevadas, de senhoras fidalgas e até de freiras, cujos registos enchem folhas e folhas dos livros de baptismos existentes nos nossos arquivos históricos.

 As crianças ficavam em amas que as amamentavam e criávam até aos 7 anos,  idade com que voltavam para o recolhimento até aos 12. A partir desta idade estavam aptos a serem "criados "a quem  melhor pagasse, mas sempre sob protecção do juiz dos orfãos até completados os 21 anos. Outros aprendiam uma profissão portas a dentro da Casa Pia de Lisboa, criada por Pina Manique para esse fim.

Por direito os pais podiam reaver os filhos e alguns voltavam para recuperar a sua criança, reportando-se aos objectos ou a uma carta que a companharam. É uma dessas cartas que a exemplo, transcrevo nestas linhas:

Por muito obzequio rogamos ao Illustrissimo Senhor Vigário da Batalha, que tenho a begnidade de olhar para esta criensa, que tenha sempre boa amma, e a seo tempo se pagará toda a despeza a Sua Magestade, queremos que se baptize nessa freguezia, chamar-se-há se for macho Furtunato Armino, e se for femia Idem, Padrinho será huma pessoa que Vossa Senhoria julgar de mais caridade nesse districto, e Madrinha nossa Senhora da Piedade.

Esta sedola se hade cuzer ao assento do livro Baptismal. em nosso puder fica hum escripto egual com a competente retra e recorte. Feito em 25 de Julho de 1819.

Abaixo com letra do vigário da freguesia lê-se:

Aos 2 de Junho de 1822 foi entregue o sobredito Menino a João Bernardo e a sua mulher Maria Cordeira do Juncal que declarou  ser filho delle e sua mulher. João Bernardes. O Vigário Vieira.

Esta carta possui, do seu lado direito uns recortes com linhas e traços que deveria encaixar no pedaço com hum escripto egual, que ficou com o autor dela. Era a prova que eles tinham para recuperar o seu filho.

Casos como este eram muito raros, mas existiram.

Fonte: Arquivo Distrital de Leiria, Livro de baptismos da freguesia da Batalha 1794-1820

            PT/ADLRA/PRQ/PBTL01/1

Bibliografia: SERRÂO, Joel -dir. - Dicionário de História de Portugal, vol.II. Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1971

 

publicado por Ana às 20:48
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