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Jun 11

A revista ABC que circulou pelo país, nas primeiras décadas do séc. XX, delicia-me pelo conteúdo dos seus artigos, pelos desenhos, pelo estilo, pela apresentação. Enfim, agrada-me.

Foi um dos seus números[1], que me conduziu até Maria Amália Vaz de Carvalho, a primeira humorista do nosso país, sob o pseudónimo Luzia,  oriunda de um extracto  elitista da sociedade portuguesa, extremamente culta, viajada, inteligente, de um bom gosto, que as suas obras deixam antever.

Os Que se Divertem, que esgotou num curto espaço de tempo e bem aceite no mundo literário cinzento de então, foi o seu primeiro livro, cujo êxito a levou a escrever de seguida Rindo e Chorando. Mais tarde vieram a lume Cartas do Campo e da Cidade e as Cartas de uma Vagabunda.

Diz-nos o autor (?) do citado artigo que as  suas cartas podem, sem favôr, pôr-se em paralelo com algumas de entre as melhores que Eça Queiroz subscreveu.

A sua obra teve a graça de ver retratadas figuras lisboetas das mais representativas, tipo “novas-ricas”, escravas da moda e outras, não de forma jocosa ou ofensiva, mas com espírito e arte na condescendência e manifesta simpatia. Dizia Amália: Para ser grande na arte é preciso, antes de tudo, ser sincero. Nunca ninguém logrou traduzir bem as dores que não sentiu. Esta terá sido a chave do seu sucesso.

Escreveu ela sobre o riso[2]:

O que distingue o homem de todos os outros animais da criação, é que só o homem ri!

Isto basta para afirmar a significação do riso.

Depois, nós temos só uma maneira de chorar, que debaixo da pressão angustiosa e dilacerante da dor, caímos todos prostrados no mesmo abatimento sombrio, que, nobres ou plebeus, ricos ou pobres, crianças ou adultos, génios ou mediocridades, só temos as lágrimas como supremo alívio ou como suprema expressão, temos em contraposição tantas maneiras de rir quantas são as diferenças que nos distinguem e separam uns dos outros.

Há o riso das crianças: - eflúvio visível d alma dos anjos.

Há o riso das virgens: - reflexo ideal de um paraíso onde a árvore do mal ainda não lançou as suas sinistras raízes.

O riso dos velhos: - uma luz feita de doçura, de experiência e de bondade, um conselho mudo a que ninguém resiste, o perfume de uma flor murcha, que evoca diante do nosso olhar, mundos que se esvaíram.

O riso das mães: - a natureza formou-o da alvura irada das suas pérolas, da claridade rubra e prometedora das suas auroras, de tudo que há de mais carinhoso nos seus seios ubérrimos, de tudo que há mais puro nas suas graças estivais. É uma nesga de céu, entrevista através de uns lábios de mulher.

O riso das almas satisfeitas: - consolação e esperança dos que procuram insaciáveis alguma coisa que nunca houve e que nunca haverá.

O riso dos maus: - face aberta de um abismo, no fundo do qual bramam com fragor soturno as águas lodosas de todas as paixões indomadas.

Acima de todos estes risos e feito de todos os elementos que os constituem e de muitos outros que lhes faltam, vibra, estridente, poderoso, derramando em torno a sua influência fecunda, o riso enorme que abala os tronos pela base, e que destrói os preconceitos e os ridículos pela raiz.

Chama-se a este: o riso do génio.

Todos nós o conhecemos mais ou menos.

D. Maria Amália Vaz de Carvalho



[1] Nº 480 de 26-09-1929

[2] Almanach de Lembranças, 1906

publicado por Ana às 00:00
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