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Jan 10

Estávamos em plena década de 70.

O país vivia um período conturbado, tendo como pano de fundo a Guerra Colonial.

Milhares de jovens viveram o grande drama das suas vidas. O serviço militar obrigatório e o fantasma do Ultramar, dominavam completamente o seu dia a dia e obcecava-os as fobias e os medos relativamente ao seu futuro com todas as incertezas, dúvidas e inseguranças que condicionavam os seus sonhos e limitavam os seus projectos.

Neste contexto os rapazes açorianos que vinham cumprir o serviço militar no continente, enfrentavam uma situação ainda mais adversa, devido à distância que os separava das suas famílias e ao desconforto de se sentiram sozinhos, numa terra desconhecida.

Acrescia ainda o facto de nos fins de semana, nos dias de licença ou nos períodos de férias, não terem um lugar onde permanecer, obrigando-os a recorrer a pensões, muitas vezes com condições defecitárias, a alimentarem-se mal e a frequentarem tabernas e lugares menos recomendáveis.

Foi neste quadro que uma açoriana, com a ajuda do marido, imbuída de um espírito bairrista e solidário, desenvolveu um projecto, de forma rápida e organizada - O Lar do Soldado Açoriano em Leiria.

Ilda Fonseca, apoiada por Fernando Fonseca alugou uma casa, dotou-a do equipamento  necessário, algum  em segunda mão, recorreu a várias instituições como a Cruz Vermelha, o Governo Civil e a privados, nomeadamente a industriais, a comerciantes entre outros.

Elaborou um regulamento e estabeleceu um manual de procedimentos para o Lar.

Os pais contribuiam para a renda e despesas mínimas de luz, água, gás e alimentação.

Ao fim de semana, confeccionava-lhes as refeições, ensinava-os a lavar a sua roupa, instituiu regras de higiene e limpeza.

Criou condições de lazer, fomentando a leitura de jornais e livros, comprou uma televisão que convidava aos serões, promovia momentos de convívio, onde não faltavam os cantares açorianos. Havia sempre um jovem que tocava viola.

Ilda e Fernando também organizavam passeios, piqueniques e pelo Natal, não prescindiam de levar o Lar a visitar os açorianos detidos na Prisão Escola de Leiria e os internados no Hospital Militar em Lisboa. 

Para uma acção mais consertada, Ilda criou uma boa relação com os comandantes das unidades militares da região, que permitia um maior apoio aos rapazes.

De início com quinze jovens, rapidamente o número duplicou o que obrigou a uma mudança de casa. Chegaram a juntar-se sessenta rapazes entre uma incorporação que saía e outra que chegava. E Ilda sabia improvisar.

O Lar era o oásis dos militares açorianos que chegavam a Leiria.

Lá encontravam não só abrigo e conforto, mas um ambiente familiar onde não faltava carinho, compreensão, apoio, dedicação.

O Casal estava sempre presente nas horas boas e nas horas más, dos seus meninos, como lhes chamava Ilda. Substituiam-se aos pais nos juramentos de bandeira, na hora da partida para as outras unidades e na pior das horas -  na despedida para o Ultramar.

Ilda, não teve filhos mas foi uma segunda mãe para algumas centenas de jovens açorianos, que reconheceram a sua acção. Não foi por acaso que lhe chamavam a Mãe Militar.

Actualmente residente em Ponta Delgada, sua terra natal, Ilda tem recebido manifestações de carinho e de reconhecimento de muitos desses jovens açorianos e como disse um dia: Foi o melhor que fiz até hoje, o melhor tempo da minha vida, a mais bela passagem por este mundo.

 

publicado por Ana às 22:37
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