22
Mar 20

O Orfeão de Leiria foi fundado oficialmente, em 1946. Antes, porém, já existia um grupo que se dedicava a actividades vocais, com reminiscências anteriores, sendo que a origem de um orfeão em Leiria, remonta a 1886, que nasce pela mão do Alferes de Caçadores nº 6 António Dias da Costa Pinto, também um famoso  pianista, através de uma carta de 23 de Maio do referido ano, dirigida a vários indivíduos, que passo a transcrever:

Exmº Sr. - A exemplo do que se pratica  desde muito tempo nas pincipaes localidades de todos os paizes da Europa, e do que já ultimamente se tem conseguido em Portugal, tenho projectado organisar em Leiria uma sociedade coral, denominada "Orpheon Leiriense".

Seria fastidioso ennumerar a Vª. Exª todas as vantagens de grande alcance que uma aggremição d'estas póde trazer ao meio em que se sustenta.

Se a ideia lograr enraizar-se e progredir comoespero, o tempo mostrará melhor do que eu o poderia agora fazer, como são profícuos os resultados materiaes e moraes do "Orpheon",  que além dóutras vantagens proximas, como a do [pas... po] agradavel, trará a de poderem os seus associados proteger a pobreza por meio de espectaculos apropriados convenientemente dirigidos.

É quasi uma necessidade esta creação, agora que um grupo notavelmente sympathico de habitantes de Leiria se deve a iniciação da "Sociedade Protectora dos Pobres", que mal poderá confirmar praticamente o seu nome, se todos nós lhe grangearmos fontes de receita, d'entre os quaes avultariam alguns concertos, promovidos em seu benefício, e para os quaes ha, infelizmente, poucos recursos musicaes em Leiria.

O "Orpheon Leiriense" poderá ser, e deve ser, como que uma consequencia d'aquella outra sublime instituição.

D'um caracter essencialmente democrático, não admitte exclusivismos de classes; artistico ou caritativo, honram-n'o egualmente os que cultivarem a arte, e os que exercem a caridade.

Do  primeiro ao ultimo socio, nenhum auterirá, mais que os outros, os louros da arte, ou os premios da virtude; antes serão todos, será a grande massa anonyma a colher uns e outros.

Para a direcção artística do "Orpheon Leiriense" encontrei a melhor vontade  nos Exmºs Srs. Ignacio Ayres d'Azevedo, José d'Oliveira Zuquet e Joaquim Zuquete, que commigo vão emprehender esta obra, para cujo exito completo venho pedir a associação de Vª. Exª., rogando-lhe a fineza de comparecer na póxima segunda feira, no salão do theatro de D. Maria Pia, á hora que se indicará no proximo numero do "Districto de Leiria", para entre todos se assentarem as bases da sociedade que, além de todas as commodidades, tem a de não obrigar a despeza alguma.

Leiria, etc.

Sou, com a maior consideração

De Vª: Exª., creado e obrigado.

Leiria 23 de maio de 1886".

A reunião ocorreu segunda feira 24 de maio. Inscreveram-se 50 sócios.

Nota: Entre esta associação e a constituição do Orfeão de Leiria vai um periodo de 60 anos, que vou procurar  investigar.

 

publicado por Ana às 15:48

21
Mar 20

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Fundada em 6 de Junho de 1966, a União Desportiva de Leiria foi um clube eminentemente futebolístico. Foi o seu primeiro presidente Alfredo de Sousa Brandão que a de Abril de 1967 emitiu uma circular, de linguagem poética, mas à época, muito usual e aglutinadora, que passo a transcrever:

Prezados Consócios, Amigos e Simpatizantes

VÃO já decorridos dez meses sobre a fundação do NOSSO CLUBE, fruto do entusiasmo, do dinamismo, do amor dos leirienses à sua terra e do desportivismo de tantos e tantos.

Naturais desta encantadora parcela da Terra Lusitana ou há muito aqui residentes, ou, ainda, afeiçoados a Leiria pelo coração ou pela hospitalidade das suas gentes, todos nos congregámos para “num só coração e numa só alma” dotar a bela princesa do lis e o seu Concelho, dum clube desportivo digno e capaz de lembrar o esplendor áureo de outros seus antepassados e que possa ao mesmo tempo tornar-se cartaz policromado deste rincão perfumado pelas flores do verde pino.

Venceram-se as primeiras dificuldades. Muito há ainda para fazer.

Iniciaram-se os primeiros passos e já muito se andou, até mesmo aonde não esperaríamos poder chegar em tão escassos meses.

A obra é de todos e para todos. Precisamos do apoio e da compreensão de todos os leirienses de boa vontade espalhados por todo o concelho ou que moirejam em qualquer parte do mundo, para fazermos da UNIÃO DESPORTIVA DE LEIRIA  o clube de todos os leirienses  em prol do Desporto e de Leiria e de todo o seu Concelho.

Sem desânimos, sejam quais forem os insucessos do primeiro ano ou por melhor que sejam os resultados, EM FRENTE: a obra não é só para hoje mas também para o futuro.

Pela Direcção o Presidente Alfredo de Sousa Brandão.

Parece-me ver que no início nem tudo ia de feição, o que terá levado o  presidente a editar esta circular, cujas folhas interiores, apresentam as tabelas com os resultados dos jogos distritais da 1ª categoria e dos juvenis,  dos jogadores utilizados, o número de golos  marcados e sofridos, o calendário co campeonato da III divisão, informação pertinente para avançar com o projecto, a fim de motivar os leirienses. A reforçar esta ideia, encontra-se, na última página, a proposta para sócio de Eusébio da Silva Ferreira, o grande craque do Sport Lisboa e Benfica.

A União Desportiva de Leiria, muito apoiada pelos leirienses, passou a ser a paixão desportiva de muitos deles, que viviam intensamente os jogos, que decorriam tanto em Leiria, como fora dela. Nos Domingos, famílias inteiras deslocavam-se a outras localidades, para aplaudir os seus jogadores, sempre esperançosos na vitória do seu clube.

O meu pai afeiçoado a Leiria pelo coração e também pela hospitalidade das suas gentes, apesar de não ser sócio, nutria simpatia pelo clube e uma paixão pelo futebol, sublimada como jogador do Bombarralense e depois da equipa dos Marrazes. Por esse motivo, deslocávamo-nos algumas vezes e lembro-me de irmos a Portalegre, Figueira da Foz, Marinha Grande, Nazaré, Cantanhede, sendo que, de forma geral, os homens assistiam ao jogo e as famílias passeavam pela urbe.

No final dos jogos, grupos de adeptos juntavam-se na Praça Rodrigues Lobo onde celebravam as vitórias e choravam as derrotas. Houve quem lhe chamasse, “A Praça das Lágrimas”.

Fruto de um grande trabalho do clube e do apoio da terra, a União foi singrando, até conseguir entrar na 1ª Divisão do Campeonato Nacional. Leiria regozijava-se!

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publicado por Ana às 15:26

 

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O Teatro José Lúcio da Silva em Leiria

Após décadas de existência como primeiro polo cultural de Leiria, o Teatro D. Maria Pia, foi demolido e o terreno limpo em 16 de Janeiro de 1959. Com instalações a não oferecerem segurança para os seus frequentadores, com uma lotação muito restrita para a população que usufruía daquele espaço, com a necessidade de grandes obras de remodelação, propôs o Vereador da Câmara Municipal de Leiria, António Augusto Jorge Marçal, em 23 de Janeiro de 1945, que fosse encontrada uma solução para dotar a cidade de um espaço condigno para cinema e teatro.

Em 7 de Outubro de 1957, a Associação do Teatro D. Maria Pia, solicitou ao município autorização para ser construído o “Barracão”, no Largo 5 de Outubro, que permitisse receber espetáculos, pelo período de um ano, tempo necessário à remodelação do Teatro D. Maria. Funcionou muito para além do tempo previsto, em condições sem o mínimo de conforto, de temperatura e de saúde.

Ora, desde a proposta de 23 de Janeiro de 1945 e posterior demolição do edifício do Teatro, a localização do novo edifício foi o ponto crucial do processo, uma vez que tinha caído por terra a construção no primitivo terreno. Foi apontado o Campo D. Luís I, posterior Largo 5 de Outubro, também um terreno da família Serrador na Rua Comandante Almeida Henriques. Chegou a ser expropriado um terreno de Dâmaso Luís dos Santos, na Rua Duarte Pacheco e outra das propostas incidiu num terreno da família Marques da Cruz, a norte do Largo 5 de Outubro.

Outrossim as condições apresentadas pela Associação do Teatro, à Câmara, nomeadamente as indemnizações, originaram muitas negociações, sem sucesso que arrastaram o assunto por muitos anos e que envolveram outras instituições até ao Tribunal Judicial de Leiria, bem como alguns proprietários de Leiria.

Em 13 de Julho de 1962 a Associação renuncia às suas exigências.

Decorria o ano de 1963 e numa reunião extraordinária de 23 de Outubro, o Presidente da Câmara Municipal de Leiria deu conhecimento de uma doação de um leiriense no valor de 5000000$00 (cinco milhões de escudos) para a construção de um cine-teatro.

A Câmara Municipal viabilizaria um terreno e assumiria os compromissos propostos.

A residir em Lisboa, José Lúcio da Silva foi o grande benemérito do Teatro, a que edilidade camarária atribuiu, com toda a justiça o seu nome. A mesma Câmara, propôs ainda, ao Governo,  uma condecoração e deu o nome ao Largo de José Lúcio da Silva.                                      

António Marques da Cruz cedeu umas parcelas de terreno, onde veio a ser construído o tão desejado Teatro, inaugurado em 15 e Janeiro de 1966. A comemorar a efeméride esteve a Companhia do Teatro Nacional D. Maria II de Lisboa, com a peça “Os Velhos”, da autoria de D. João Câmara, presidida pelo Presidente da República e Ministro do Interior.

A primeira sessão de cinema realizou-se no Domingo de 16 de Janeiro do mesmo ano, com a metragem “Lord Jim”, produzida pela Colômbia Films.

O Teatro José Lúcio da Silva foi um dos melhores empreendimentos do século passado em Leiria. Os leirienses ficaram ufanos do seu Teatro. De arquitectura vanguardista, com uma sala de espetáculos espaçosa e confortável, com um palco de dimensões bastante generosas, foi o primeiro teatro do país a possuir quadrifonia. É considerada uma das melhores salas de espetáculo do país.

 

 

[1] https://www.google.com/search?q=teatro+jos%C3%A9+lucio+da+silva+leiria&sxsrf=ACYBGNS_TnFJjuLMOHAYZWQLwSng40bTTA:1581961033676&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwi3rNeLkNnnAhXwzIUKHa5-AuMQ_AUoAXoECA4QAw&biw=1366&bih=657#imgrc=kP8m1hvsuxQX0M

publicado por Ana às 13:59

17
Fev 20

Quase todos os Arquivos Distritais do país possuem, em alguns dos seus livros notariais e paroquiais, encadernações de pergaminho, pertencentes a códices antigos. Muitas dessas capas contém documentos antigos, em latim, português, francês e pautas de música de épocas mais remotas. Terminada a sua vida útil, foram nos séculos XVII e XVIII, utilizados para proteger aqueles livros.

Em resultado de um trabalho, praticamente inédito, que realizei no Arquivo Distrital de Leiria, onde exercia funções, para um cadeira da faculdade, sob a orientação do Doutor Saul Gomes, com base no levantamento de todas as capas de pergaminho com documentos, existentes no referido Arquivo, cruzei-me com o documento mais antigo, em português, até então conhecido, no dito Arquivo.

Trata-se de uma escritura de emprazamento de 1391 que serve de capa a um livro paroquial de Alcobaça, que compreende as datas de 1723 a 28 de Setembro de 1924, do notário Manuel Homem Coutinho. Está exarado num pergaminho grosseiro, apresenta-se com letra gótica cursiva e encontra-se muito deteriorado.

Esta descoberta revelou-se-nos bastante gratificante, cientes de que é uma mais valia, para a instituição e para o nosso ego.    

publicado por Ana às 17:26

12
Jun 19

 

Compulsando um periódico da imprensa leiriense[1] de 1923 despertou-me a curiosidade o título de um dos seus artigos - Comercio em Leiria quere descanço ao domingo. matéria que já vinha sendo defendida pela Associação Comercial Leiriense.

A discussão sobre este assunto vinha de longa data. Já em finais do séc. XIX mas sobretudo no princípio do séc. XX a polémica era constantemente colocada no sentido de haver, a nível nacional, um dia de descanso semanal do comércio, para todo o país, ao contrário do que vinha acontecendo, uma vez que cada localidade tinha dias diferentes para o efeito e algumas nem tinham.

Já em 1904, provavelmente sob a influência espanhola, surgem tentativas para a concepção de uma lei que  se debruçasse sobre a matéria.

Comungando do desejo de outras associações do comércio, de algumas profissões  liberais, a proposta da Associação do Comércio de Leiria, indicava o Domingo: É neste dia que todas as pessoas se encontram livres das suas ocupações e, por essa razão, é quando melhor podemos prestar todo o nosso culto à família, quando mais facilmente podemos ter reunidos todos os entes que nos são queridos, sentir as suas alegrias e compartilhar os seus afectos.

Em 1933 elaborado pelo vogal da Comissão PRO DD, Ernesto Korrodi, circulou um inquérito sobre o Descanso Dominical em Portugal por distritos e concelhos. Realizado o apuramento por concelhos resultou que 117 concelhos eram a favor, 109 permaneceram neutros e 45 manifestaram-se contra.

Analisando ao nível das capitais de distrito: Beja, Bragança, Aveiro, Leiria, Santarém, Portalegre concordavam com a sua generalização. Já gozavam do descanso dominical: Braga, Vila Real, Porto, Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Lisboa, Setúbal, Évora e Faro. Faro, Leiria, Lisboa e Santarém foram os distritos onde a maioria não o aceitava voluntariamente.

O Domingo foi o dia escolhido tal como ainda hoje se mantém. Até quando?

Aos nossos olhos que desde sempre nos conhecemos a utilizar o Domingo a nosso “belo prazer” e até o Sábado da parte da tarde, a tão almejada semana inglesa, causa-nos um certo desconforto que em tempos idos os comerciantes não tivessem o seu dia de descanso.

As mutações da vida vêm demonstrar-nos que as conquistas de ontem, podem não ser as ideais para os dias que correm e o que parece uma excentricidade hoje, foi outrora uma prática habitual. A abertura do comércio ao Domingo, afinal não é novidade!

O facto das grandes superfícies comerciais terem vindo a habituar-nos à prestação desse serviço que tanta polémica tem gerado com o comércio tradicional, criou um hábito que passou a ser uma exigência do público em geral.

As exigências do mundo de hoje parecem não se compadecer com o direito a direitos. Os deveres,  têm, de algum tempo a esta parte, vindo a subir na cotação dos parâmetros da empregabilidade sustentável.

Mudam-se os tempos… mudam-se as vontades.

 

[1] Voz do Povo de 24 de Novembro

publicado por Ana às 18:36

09
Jun 19

Fonte do Pocinho

“Constando que a Fonte do Pocinho tem escasseado completamente na bica, ao passo que o depósito ou mãe de água se acha com grande volume de água, deliberou a Câmara (3.8.1864) que se procedesse imediatamente ao rebaixamento necessário no depósito da água e bica a fim de que possa ser aproveitada pelo público toda a água da mesma fonte”. Cito João Cabral – Anais do Município de Leiria, 2ª ed. Leiria, CML, 1993, I vol. P. 128

A Fonte do Pocinho situada no caminho de terra batida que ligava o largo da Escola Industrial e Comercial à zona desportiva do estádio e do gimnodesportivo, que em épocas remotas poderá ter desempenhado um papel importante, pela proximidade do Bairro das Olarias, era na década de 60 e 70,  uma bica, diríamos despretensiosa quase rudimentar.

Límpida e fresca era frequentada pelos alunos da Escola. Para nós tinha um sabor especial, quando, nas tardes de sábado, regressávamos da Feira de Maio e íamos beber dela para matar a sede, lavar as mãos, talvez, para limpar a nossa consciência do pecado da mentira e da transgressão em que havíamos incorrido perante as actividades extracurriculares, pela nossa ausência, perante os pais que nos imaginavam lá e ante nós mesmas que nos víamos obrigadas a mentir para termos umas escassas horas de diversão, por sabermos que nos seriam negadas, se a elas nos propuséssemos.

Era uma pausa revigorante, um lavar a alma, um acto purificador. Era paragem obrigatória.

publicado por Ana às 14:38

13
Nov 18

 

 

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Os romanos no Rabaçal

Portugal tem "patrimónios" que nos surpreendem a cada dia. No final de Abril de 2011, fruindo de uma oferta dos filhos para duas noites na “Casa do Zé Sapateiro”, turismo rural, em Ferraria de S. João, na Lousã, “descobrimos” o Rabaçal, afamado pelo seu queijo típico. Não imaginávamos que a localidade era guardiã de tão importante espólio romano.

No museu ali criado pela Câmara Municipal de Penela, pudemos apreciar as preciosidades que a romanização nos deixou, bem apresentadas e organizadas num espaço agradável e convidativo.   

As ruínas (uma vila romana), ali perto, respeitam a uma quinta agrícola, constituída pela villa rustica e a villa urbana. A primeira corresponde ao alojamento para os servos e a frumentária, com estábulos, lagar e celeiro, de que existem muros, pavimentos e canalização. A villa urbana, ou residência senhorial é composta por entrada, atendimento e torre de vigia a sul; área de ligação de serviços, a norte; espaço de aproveitamento de luz, a nascente e quartos, oecus e triclinium, a poente. Os mosaicos não têm semelhança com outros existentes no país, pelo lhe foram atribuídos um grupo estilístico novo.

A visita guiada por um jovem arqueólogo que integra os recursos humanos da Câmara Municipal de Penela, transportou-nos a muitos séculos atrás. Pena é que os mosaicos existentes não estejam a descoberto para regalo dos nossos olhos. Preservar de danos físicos era a palavra de ordem, até que fosse viabilizada uma solução que permitisse usufruir daquelas belezas.

 

publicado por Ana às 16:33

Da minha própria experiência enquanto mulher de um deficiente das Forças Armadas e da conjuntura do país no final do Estado Novo marcada profundamente pela guerra colonial, ensaiei um trabalho sobre o papel da mulher portuguesa durante esse período.

Como actuou, como viveu, quanto sofreu.

Que dizer do papel das “nossas” mulheres?

No teatro de guerra cabe aos homens o papel principal: decidir a guerra, actuar na guerra, assumir resultados, enfrentar as consequências.

Nos bastidores ficam as mulheres. O guião reserva-lhes apenas o papel sem personagem, sem opinião, sem voz, remetendo-as ao silêncio e à sombra. E é aqui que reside o paradigma da faceta feminina. Ela não entra em palco, mas por detrás do pano é a âncora, o apoio, o porto seguro, o oásis, que nas horas de insónia, de amargura, de medo e de revolta dos seus homens, emerge forte, segura, encorajadora, o grande pilar da estrutura familiar e social, que viveu e sobreviveu a situações dificílimas e a episódios fantasmagóricos.

De forma individual ou colectiva o papel que desempenhou, o contributo que deu, os projectos que concretizou, agindo das mais variadas formas, convergindo para um  único objectivo: o apoio incondicional aos militares portugueses.

Fosse no apoio físico e material, na ajuda psicológica, no seu bem estar em geral, cada uma participou, à sua maneira e de acordo com os seus conhecimentos e meios disponíveis, de forma activa, socorrendo na Cruz Vermelha, assistindo e apoiando no Movimento Nacional Feminino, evacuando feridos com as enfermeiras páraquedistas, motivando através de aerogramas enquanto madrinhas de guerra, levando gravações de vozes de familiares feitas por Estefânea Anacoreta, abrigar e acarinhar pela Mãe Militar, Ilda Fonseca. São alguns exemplos de amor, de cumplicidade, de coragem, de esperança, de determinação. Portugal inteiro deve-lhes o merecido reconhecimento.

A Mulher nas Malhas da Guerra Colonial de Ana Bela Vinagre, publicado pela editora Fonte da Palavra, de Lisboa, em 2011 

 

 

 

publicado por Ana às 16:25

16
Jul 16

O Bairro dos Matinhos, Bombarral, no tempo do futebol de rua, com pé descaço no final dos anos 30 e início dos anos 40.

No bairro dos Matinhos as ruas, muitas dela com pátios, outras com referências de identificação como a carpintaria do mestre Augusto, a casa do Fogueteiro, as tavernas do Zé Alberto, Armando de Sousa, Fernando Rosado, António Pinheira e António Tibério, o Zé Carvoeiro, o Albininho Pintor, o pão do António padeiro, o António maleiro junto ao campo da bola, o armazém de madeiras do Farto, a casa agrícola do Tomaz Gustavo, a Cerâmica, a casa do Artur Chegadinho na ladeira dos Matinhos, o Zé Pintassilgo e a Ivone (peixeiros), o Lalôa das enxadas, o Trauliteiro e o Joaquim (sapateiros), as lojas de mercearias do Almerindo Patuleia, Fernando Alberto e José Pedro, as barbearias do Chico Tomé e Rafael Laura, o Mário ferro-velho, a serralharia do Feliciano Marques, o Largo dos Matinhos, a casa e o Vale da Várzea dos Bernardinos, a Cerca dos Patuleias, os Pepes espanhóis, tudo isto existia no perímetro” do Bairro dos Matinhos.

(…) E as “matinées” e os bailes do Sport e do Teatro? E o cinema Pompílio às quintas e domingos? Os filmes com Indios e as Coboyadas eram o nosso enlevo mas o Tarzan, Zorro, Robin dos Bosques e os atores como Jonh Wayne, Errol Flynn, Eddy Constantine, Elizabeth Tailor, Sofia Loren ou a Gina Lollobrigida, não ficavam atrás.

(…) os tostãos não abundavam…e para entrarmos “ao meio”, ou seja dois com o mesmo bilhete, tínhamos que dar grandes “engraxadelas” ao Sr. Maurício, que tinha à sua responsabilidade a porta da “Geral”. O ingresso custava 3$00, e dava direito a sentarmos nuns bancos corridos e compridos de madeira lisa. Só que… quando o filme era “bom” e a casa estava à cunha com a “Geral” a rebentar pelas costuras, aquilo era por vezes complicado e quizilento, não se conseguia melhor lugar senão nos extremos dos bancos, muito perto da ilharga do palco. Naquela posição incómoda, os nossos atores preferidos da época apareciam como deformados pela perspectiva.

(…) E os mergulhos de verão nos fundões do rio Real?

(…) E o futebol aos domingos, onde íamos ver e gritar pelos nomes daqueles jogadores que embora muitos não fossem da terra, jogavam na altura pelo Bombarralense, tais como o Severo, Pomam, Catita, Janeiro, Argentino, Armindo, Suspiro, Rui, Barrica, Carlos Santos, etc., fabulosos jogadores de míticos nomes.

Memórias do meu pai Armindo Vinagre

 

 

 

publicado por Ana às 17:28

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Ala dos Namorados

Quando pela primeira vez pisámos o recinto fronteiriço à Escola, logo nos chamou a atenção, o grande painel decorativo, não só por ficar bem de fronte do portão de entrada como também pela originalidade do estilo, pouco comum à época.

 A Escola Industrial e Comercialde Leiria foi criada e vocacionada para o desenho, onde passaram mestres e professores da arte, dos mais ilustres da nossa região, tendo sido o professor Augusto Mota um dos autores mais criativos e suis generis que integrou o seu quadro docente. Quem não se lembra das célebres capas que a Livraria Martins, durante décadas apunha aos livros que ali vendia? Eram também da sua autoria.

Da autoria do professor Augusto Mota, o painel foi executado pelos alunos de Trabalhos Manuais dos anos lectivos de 1960/1961 e 1961/1962 sob a orientação dos mestres Camilo Mourão e Adelino Romeiro e inaugurado em Junho de 1962 integrado nas Comemorações Condestabrianas e com a presença do Subsecretário de Estado da Educação Nacional.

Predominantemente azul realizado em mosaico de vidro e vinil….Ala dos Namorados é com certeza, um tributo aos jovens namorados, que evidenciam as suas primeiras manifestações amorosas, precisamente no período que frequentam o secundário. Não poderia estar melhor enquadrado.

 

Hoje, remodelado o espaço e o empreendimento escolar o painel parece ausente. Colocado em local escondido, tem dividido opiniões e levantado polémicas. Colocado de costas viradas para a cidade, limitado apenas aos olhares de quem frequenta a escola, priva, agora o público e a comunidade de poder admirar um trabalho de grande originalidade e de um enorme vanguardismo, fruto da genialidade de Augusto Mota.

Apesar de património da Escola, o painel considerado Arte Pública, é também património da cidade. Para nós ex-alunos da Escola a Ala dos Namorados, será sempre o seu ex-libris.

 

 

 

 

publicado por Ana às 16:36

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