13
Nov 18

Os romanos no Rabaçal

Portugal tem "patrimónios" que nos surpreendem a cada dia. No final de Abril de 2011, fruindo de uma oferta dos filhos para duas noites na “Casa do Zé Sapateiro”, turismo rural, em Ferraria de S. João, na Lousã, “descobrimos” o Rabaçal, afamado pelo seu queijo típico. Não imaginávamos que a localidade era guardiã de tão importante espólio romano.

No museu ali criado pela Câmara Municipal de Penela, pudemos apreciar as preciosidades que a romanização nos deixou, bem apresentadas e organizadas num espaço agradável e convidativo.   

As ruínas (uma vila romana), ali perto, respeitam a uma quinta agrícola, constituída pela villa rustica e a villa urbana. A primeira corresponde ao alojamento para os servos e a frumentária, com estábulos, lagar e celeiro, de que existem muros, pavimentos e canalização. A villa urbana, ou residência senhorial é composta por entrada, atendimento e torre de vigia a sul; área de ligação de serviços, a norte; espaço de aproveitamento de luz, a nascente e quartos, oecus e triclinium, a poente. Os mosaicos não têm semelhança com outros existentes no país, pelo lhe foram atribuídos um grupo estilístico novo.

A visita guiada por um jovem arqueólogo que integra os recursos humanos da Câmara Municipal de Penela, transportou-nos a muitos séculos atrás. Pena é que os mosaicos existentes não estejam a descoberto para regalo dos nossos olhos. Preservar de danos físicos era a palavra de ordem, até que fosse viabilizada uma solução que permitisse usufruir daquelas belezas.

 

publicado por Ana às 16:33

Da minha própria experiência enquanto mulher de um deficiente das Forças Armadas e da conjuntura do país no final do Estado Novo marcada profundamente pela guerra colonial, ensaiei um trabalho sobre o papel da mulher portuguesa durante esse período.

Como actuou, como viveu, quanto sofreu.

Que dizer do papel das “nossas” mulheres?

No teatro de guerra cabe aos homens o papel principal: decidir a guerra, actuar na guerra, assumir resultados, enfrentar as consequências.

Nos bastidores ficam as mulheres. O guião reserva-lhes apenas o papel sem personagem, sem opinião, sem voz, remetendo-as ao silêncio e à sombra. E é aqui que reside o paradigma da faceta feminina. Ela não entra em palco, mas por detrás do pano é a âncora, o apoio, o porto seguro, o oásis, que nas horas de insónia, de amargura, de medo e de revolta dos seus homens, emerge forte, segura, encorajadora, o grande pilar da estrutura familiar e social, que viveu e sobreviveu a situações dificílimas e a episódios fantasmagóricos.

De forma individual ou colectiva o papel que desempenhou, o contributo que deu, os projectos que concretizou, agindo das mais variadas formas, convergindo para um  único objectivo: o apoio incondicional aos militares portugueses.

Fosse no apoio físico e material, na ajuda psicológica, no seu bem estar em geral, cada uma participou, à sua maneira e de acordo com os seus conhecimentos e meios disponíveis, de forma activa, socorrendo na Cruz Vermelha, assistindo e apoiando no Movimento Nacional Feminino, evacuando feridos com as enfermeiras páraquedistas, motivando através de aerogramas enquanto madrinhas de guerra, levando gravações de vozes de familiares feitas por Estefânea Anacoreta, abrigar e acarinhar pela Mãe Militar, Ilda Fonseca. São alguns exemplos de amor, de cumplicidade, de coragem, de esperança, de determinação. Portugal inteiro deve-lhes o merecido reconhecimento.

A Mulher nas Malhas da Guerra Colonial de Ana Bela Vinagre, publicado pela editora Fonte da Palavra, de Lisboa, em 2011 

 

 

 

publicado por Ana às 16:25

16
Jul 16

O Bairro dos Matinhos, no tempo do futebol de rua, com pé descaço (Bombarral) , final dos anos 30 e início dos 40

No bairro dos Matinhos as ruas, muitas dela com pátios, outras com referências de identificação como a carpintaria do mestre Augusto, a casa do Fogueteiro, as tavernas do Zé Alberto, Armando de Sousa, Fernando Rosado, António Pinheira e António Tibério, o Zé Carvoeiro, o Albininho Pintor, o pão do António padeiro, o António maleiro junto ao campo da bola, o armazém de madeiras do Farto, a casa agrícola do Tomaz Gustavo, a Cerâmica, a casa do Artur Chegadinho na ladeira dos Matinhos, o Zé Pintassilgo e a Ivone (peixeiros), o Lalôa das enxadas, o Trauliteiro e o Joaquim (sapateiros), as lojas de mercearias do Almerindo Patuleia, Fernando Alberto e José Pedro, as barbearias do Chico Tomé e Rafael Laura, o Mário ferro-velho, a serralharia do Feliciano Marques, o Largo dos Matinhos, a casa e o Vale da Várzea dos Bernardinos, a Cerca dos Patuleias, os Pepes espanhóis, tudo isto existia no perímetro” do Bairro dos Matinhos.

(…) E as “matinées” e os bailes do Sport e do Teatro? E o cinema Pompílio às quintas e domingos? Os filmes com Indios e as Coboyadas eram o nosso enlevo mas o Tarzan, Zorro, Robin dos Bosques e os atores como Jonh Wayne, Errol Flynn, Eddy Constantine, Elizabeth Tailor, Sofia Loren ou a Gina Lollobrigida, não ficavam atrás.

(…) os tostãos não abundavam…e para entrarmos “ao meio”, ou seja dois com o mesmo bilhete, tínhamos que dar grandes “engraxadelas” ao Sr. Maurício, que tinha à sua responsabilidade a porta da “Geral”. O ingresso custava 3$00, e dava direito a sentarmos nuns bancos corridos e compridos de madeira lisa. Só que… quando o filme era “bom” e a casa estava à cunha com a “Geral” a rebentar pelas costuras, aquilo era por vezes complicado e quizilento, não se conseguia melhor lugar senão nos extremos dos bancos, muito perto da ilharga do palco. Naquela posição incómoda, os nossos atores preferidos da época apareciam como deformados pela perspectiva.

(…) E os mergulhos de verão nos fundões do rio Real?

(…) E o futebol aos domingos, onde íamos ver e gritar pelos nomes daqueles jogadores que embora muitos não fossem da terra, jogavam na altura pelo Bombarralense, tais como o Severo, Pomam, Catita, Janeiro, Argentino, Armindo, Suspiro, Rui, Barrica, Carlos Santos, etc., fabulosos jogadores de míticos nomes.

Memórias do meu pai Armindo Vinagre

 

 

 

publicado por Ana às 17:28

Ala dos Namorados

Quando pela primeira vez pisámos o recinto fronteiriço à Escola, logo nos chamou a atenção, o grande painel decorativo, não só por ficar bem de fronte do portão de entrada como também pela originalidade do estilo pouco comum à época.

Da autoria do professor Augusto Mota, ( A EICLRA foi criada e vocacionada para o desenho, onde passaram mestres e professores da arte, dos mais ilustres da nossa região, tendo sido o professor Augusto Mota um dos autores mais criativos e suis generis que integrou o seu quadro docente. Quem não se lembra das célebres capas que a Livraria Martins, durante décadas apunha aos livros que ali vendia? Eram também da sua autoria) foi executado pelos alunos de Trabalhos Manuais dos anos lectivos de 1960/1961 e 1961/1962 sob a orientação dos mestres Camilo Mourão e Adelino Romeiro e inaugurado em Junho de 1962 integrado nas Comemorações Condestabrianas e com a presença do Subsecretário de Estado da Educação Nacional.

num painel lindíssimo predominantemente azul,

Ala dos Namorados é com certeza, um tributo aos jovens namorados, que evidenciam as suas primeiras manifestações amorosas, precisamente no período que frequentam o secundário. Não poderia estar melhor enquadrado.

Predominantemente azul realizado em mosaico de vidro e vinil….

Hoje, remodelado o espaço e o empreendimento escolar o painel parece ausente. Colocado em local escondido, tem dividido opiniões e levantado polémicas. Colocado de costas viradas para a cidade, limitado apenas aos olhares de quem frequenta a escola, priva, agora o público e a comunidade de poder admirar um trabalho de grande originalidade e de um enorme vanguardismo, fruto da genialidade de Augusto Mota.

Apesar de património da Escola, o painel considerado Arte Pública, é também património da cidade. Para nós ex-alunos da Escola a Ala dos Namorados, será sempre o seu ex-libris.

 

 

 

 

publicado por Ana às 16:36

11
Dez 12

Domitília de Carvalho, nascida em 1871, detém um lugar de destaque na História das Mulheres do nosso país.

Licenciada em Matemática, Filosofia e Medicina, fez parte das primeiras três deputadas do Estado Novo. Nesta qualidade, foi intervencionista numa acção regionalista defendida pelo distrito de Leiria, através da Casa do Distrito de Leiria, ao assinar um documento, em 21 de Dezembro de 1937, pedindo o regresso do Distrito à anterior Divisão Administrativa, na sequência do Código Administrativo de 1936.

Domitília Carvalho sensibilizada para o assunto, talvez pelo elo que a mantinha Leiria, onde frequentou o Liceu Nacional com notável distinção, a manifestar a uma invulgar apetência para a vertente científica, aceitou o desafio.

Pacifista, feminista, vanguardista, num mundo onde a mulher começava a dar os primeiros passos na vida cívica e política, defendeu a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, empenhando-se na transformação da Escola Feminina Maria Pia, no primeiro Liceu feminino em Portugal, o Liceu Maria Pia (1906).

Quando ainda frequentava o 2º ano de Medicina na Universidade de Coimbra e durante uma visita da rainha D. Amélia, foi-lhe Domitília Carvalho referenciada pelas suas elevadas qualidades académicas, ao que a soberana distinguiu com a atribuição de um subsídio para continuar os seus estudos.

A convite da rainha, em 1904, foi trabalhar para Lisboa, na então recém criada Associação Nacional da Tuberculose. Prestou serviço no Centro Materno-Infantil que abriu as portas na que foi depois a Maternidade Magalhães Coutinho.

Sendo brilhante na área científica, Domitília de Carvalho denotava uma sensibilidade poética que a levou à composição de alguns poemas, que a tornaram conhecida, também neste campo. Aqui fica um dos muitos que nos deixou e que confirma o carinho e o gosto pela região de Leiria, ao dedica-lo a S. Pedro de Moel.

 
                                                    

À beira- mar 

 

É tarde. O sol poente esparge em sua estrada

                    Uns laivos purpurinos.

Ouve-se, muito longe, a plangente toada

                    Da musica dos sinos.

 

As ondas de esmeralda, arfando – a uma e uma   

                   Vêm na praia expirar.

Envolve-as de branco o manto seu de espuma,

                   De flocos de luar.

 

Em breve a meiga lua, e o fulgido cortejo

                   De estrelas pequeninas,

Surgirão a inundar n’um luminoso beijo

                   As águas cristalinas.

 

A vaga a marulhar repete docemente

                   Algum segredo ouvido…

Sinto que ela me diz, em sua voz dolente,

                   Um nome estremecido,

 

Quando o sol já se oculta e deixa em sua estrada

                   Uns laivos purpurinos,

E se ouve, lá ao longe, a plangente toada

                   Da musica dos sinos.

 

publicado por Ana às 19:51

10
Dez 12

Não conheci o Dr. Serafim, mas tenho ouvido relatos sobre o seu carácter e o seu profissionalismo e como se dedicou aos flagelados pela tuberculose. Um dia, compulsando o jornal “Região de Leiria”, chamou-me a atenção a descrição do seu falecimento. Notícia de primeira página do nº 1385 de 11 de Julho de 1964, não resisti a transcrevê-lo hoje aqui.

“Dr. Serafim Lopes Pereira – um Bem que se perdeu

Naquela rútila manhã de domingo 28 de Junho, uma notícia, triste e bem dolorosa, ensombrou o coração dos leirienses e logo toda a cidade mergulhou na mais profunda consternação. E quando uma terra manifesta assim o seu sentimento de dor, algo de grande e de forte a levam a fazê-lo E, não há dúvida, acabava de desaparecer do plano terrestre Alguém que pelos revérberos do seu coração, pelo humanismo do seu carácter e pela pureza das suas convicções, lhe merecia todo o respeito e infinda consideração. E nunca foi tão expresso esse sentimento como o causado com a morte do sr. Dr. Serafim Lopes Pereira.

Alma cheia de amor ao próximo, coração aberto a todos os sofrimentos humanos, apaixonado admirador dum ideal nobre e generoso, o sr. Dr. Serafim era um conjunto de si próprio: impulsivo, mas sincero e bom. É que quando alguns o viam desbravado e agreste, os mesmos e outros o divisavam manso e humilde no seu benfazer. Eram mundos além dele: o imperativo do seu temperamento. Mas, ao cabo e ao fim, quem com ele privava o adivinhava um Bom por dentro e por fora.

Médico distinto e emérito especialista de doenças pulmonares, muito considerado no país e no estrangeiro, onde nos vários congressos a que assistia as suas teses eram sempre escutadas com interesse e respeito, uma das maiores facetas da sua vida profissional era o carinho que dedicava aos seus doentes e especialmente o desinteresse e abnegação com que tratava os pobres. Fazia tudo para amenizar o sofrimento dos que lhe estavam confiados. (…)

O sr. Dr. Serafim não precisa do nosso dó, como tristemente precisam os egoístas e os maus, os nulos que morrem deveras ao abandonar a terra, porque, se deixam os corpos entregues aos vermes, despenham as almas sinistras nos abismos que criaram cm as suas qualidades negativas.

Não partiu com remorsos de ter deixado de fazer todo o Bem que podia – o que é mais do que praticar a trivial caridade. Foi sinceramente modesto e, por isso inteiramente digno.

Foi abnegado, sem reclamo. Foi austero sem intolerância. Não teve medo do contacto com os desgraçados, porque foi principalmente a esses que auxiliou, amparou e fortaleceu. Usou poderosamente da inteligência, do saber, da força de vontade, mas sem nunca deprimir o sentimento, as aspirações ardentes do coração, os impulsos duma piedade que jamais rebaixava ninguém com lágrimas hiperbólicas, antes a todos dignificava, alentava e remia.

Quem conheceu o sr. Dr. Serafim Lopes Pereira, diga-se o que se disser, não aceita que ele, no despertar da morte, se haja transfigurado na rigidez e robustez do seu carácter. Quem assim o fizer constar, só pretende macular a sua memória, talvez com fins preconcebidos.

Do seu funeral, já aqui se disse o bastante para se avaliar da sua grandeza e do inconfundível testemunho de gratidão ao saudoso finado.

Morreu o sr. Dr. Serafim… Oh Pobreza, minha irmã, chora….  R. A.”

 

Ainda hoje muita gente o recorda com saudade e bem podia ser um exemplo a seguir por muitos dos médicos de hoje, que por vezes vivem mais os cifrões que a sua própria vocação.

 

publicado por Ana às 22:25

Durante catorze anos convivi diariamente com Marcos Portugal, quero dizer, com a rua que recebeu o seu nome. Quem foi Marcos Portugal?

Marcos António da Fonseca Portugal foi um músico que nasceu em Lisboa em 1762, reconhecido na sua época como um dos mais ilustres compositores.

Autor de uma vastíssima obra musical, afirmou-se em operas, umas sérias outras mais jocosas, dramas, farsas, cantatas, entremeses, serenatas, cenas líricas entre outras, também introduziu trechos novos em trabalhos de outros autores.

Só para referir algumas de carácter mais sério "Adrasto, rei do Egipto" representada em S. Carlos (1800); "Argenide" em S. Carlos (1804) e também representada em Londres (1806 e 1815, em Verona (1809), Florença (1815), Palermo (1817); "Demofonte" em Milão (1794), S. Carlos (1808 e 1819), Rio de Janeiro (1811); "Artaxerxes" em S. Carlos (1806) e em Florença (1810), Rio de Janeiro (1812), Parma (1816).

Obras de cariz mais jocoso e que foram de grande sucesso: "La confusione della somiglianza" que pisou palcos de Florença, Siena, Genova, Barcelona, Monza, Pavis, Berlim, Madrid, Mantua, Turim, Wurzburg, Hannover, Noremberg, Milão e muitas outras cidades.

Também com outras peças esteve em Roma, Rimini, Alexandria, Gubbio, Zara, Bolonha, Modena, Cesena, Viena de Austria, Pisa, Paris, Lodi, Crema, Brescia, Roveredo, Veneza, entre outras.

Das farsas mais bem sucedidas salientam-se "La maschera fortunata" que passou por Veneza, Verona, Forli, Florença, Mantua, Parma, Milão, Barcelona, Lisboa, Paris, Padua.

De entre uma vida cheia foi ainda, Marcos Portugal, director do Teatro S. Carlos.

Considerado uma glória nacional, foi editado por Manuel Carvalhais, um erudito historiador musical contemporâneo, num livro intitulado "Marcos Portugal na sua música dramática". Na dedicatória, refere-se-lhe como "o glorioso musico que, no ultimo quarto do seculo XVIII e primeiro do seculo XIX, fêz crer à Europa e à America nos prodigios da Cithara de Orfeu e do Canto das Sereias".

Acredito que Marcos Portugal poderia fazer parte da lista dos famosos clássicos, se tivesse nascido em Austria, Alemanhã ou outro país que o soubesse promover!

publicado por Ana às 22:21

Cresci a conviver de muito perto com o pinhal.

Desde tenra idade, sempre que o tempo permitia, o domingo era na praia ou em piqueniques, no pinhal. O verde dos pinheiros, o cheiro da resina, a manta de caruma que cobria o chão e aromatizava o espaço, fazem parte da minha paisagem. Não me imagino a viver noutro local. Mesmo quando o destino era a praia, o almoço era sempre no pinhal. De regresso a casa ainda fazíamos uma paragem para o lanche, que só terminava com a proximidade da noite.

Aos primeiros indícios de Primavera lá íamos (a família com um grupo de amigos ) rumo ao pinhal na procura de paz, de ar puro, de espaço, de energia, que nos revigorava para mais uma semana de trabalho.

À hora marcada reuníamo-nos no local estipulado, com todo o equipamento necessário, um bom repasto e boa disposição, para um dia bem passado. Feitas as saudações habituais, combinava-se o local do destino e lá partíamos em cortejo automobilístico rumo ao paraíso dominical.

Dependendo de ser um dia ameno ou quente, era escolhido um lugar mais abrigado ou  mais dotado de sombra, por vezes junto a um riacho, de preferência.

A mesa, as cadeiras, a tradicional manta, almofadas, tudo era estrategicamente colocado de forma a proporcionar conforto, lazer, descanso, divertimento. Sim, porque se tratavam de  convívios onde o bom humor nunca faltava, por vezes apimentado por uma anedota mais atrevida, uma piada espirituosa, uma situação caricata, um ou outro episódio que o nosso dia a dia nos proporciona, que rivalizam com a mais piadética anedota.

Divertidos eram os jogos que recriávamos: hóquei em que os stiks eram substituídos por troncos de pinheiro onde não faltavam claks e relato; corrida de sacos com participantes a cair mais, que a correr. O chinquilho com equipas a lembrar profissionais, jogos de cartas…

O momento especial era concedido ao almoço. As mesas recebiam as diversas iguarias. As mulheres, cozinheiras de mão cheia apresentavam as suas especialidades, sempre muito apreciados pelos bons garfos do grupo. Trocavam-se receitas, teciam-se elogios, a harmonia era perfeita. Chegada a hora da fruta, o melão era rei. Competia-se com o melão mais saboroso. No final umas guloseimas eram sempre bem recebidas.

publicado por Ana às 18:38

28
Dez 11

Nascidas no meio do imenso Atlântico, as ilhas Açorianas não negam a sua origem vulcânica, bem patente na formação da Lagoa das Sete Cidades e da Lagoa do Fogo, na Ilha de São Miguel, a própria Ilha do Pico, o Caldeirão na Ilha do Faial.

Com uma actividade sísmica permanente, os Açores têm sofrido algumas erupções ao longo dos séculos, com destaque para os anos de 1563, no Pico do Sapateiro, e 1620 no Vale das Furnas, na Ilha de São Miguel; 1672 o Capelo, na Ilha do Faial; 1720 na Ilha do Pico; 1808, a Nazelina, na Ilha de São Jorge e novamente no Faial com o Vulcão dos Capelinhos em 1957, já para não  falar nas erupções submarinas.

Mas as suas ilhas têm sido também palco de violentos terramotos. Em 1522 a Vila de Praia de Âncora, em São Miguel, foi destruída. No ano de 1841 foi arrasada a Vila da Praia na Ilha Terceira. Alguns anos mais tarde em 1852 foi a vez de Ponta Delgada. Já mais recentemente lembramos o terramoto, que em 1980 danificou grande parte da cidade de Angra do Heroísmo.

O que nos traz à conversa hoje, mais propriamente à escrita é o terramoto de 1841 que assolou de forma dramática a cidade de Vila da Praia, reduzindo-a a um monte de ruínas, desalojando os seus habitantes, deixando-os  numa situação de extrema penuria e miséria.

O primeiro documento emitido pela Corte sobre o assunto, sai do Paço de Sintra, assinado pelo Barão de Tilheiras, com  data de 5 de Julho e refere-se-lhe nos seguintes termos: por occazião das repetidas oscilações terrestes, que ali se sentiram desde o dia 12 de Junho próximo passado, a que se seguio o espantozo terremoto, que teve logar no dia 15 e que destruio e arruinou completamente a Villa da Praia, produzinddo ao mesmo tempo gravíssimos estragos na Villa de S. Sebastião, em todas as povoações que ficam a leite entre esta ultima Villa e as Lages; do que resultou ficarem os habitantes de todas essas povoações reduzidos á maior consternação e miséria, pelos inormes prejuízos que sofrerão com o total desbarato das suas propriedades, e perdas de todos os objectos de uso domestico.

D. Maria II decretou e Joaquim António de Aguiar, tomou medidas de auxílio que se obterão da generosidade, filantropia e gratidão do Povo Portuguez generosidade de que são credores os habitantes da mencionada Ilha pelos apurados sacrifícios e muitos valiosos serviços, que prestárão em prol da Liberdade e da Independencia Nacional.

Determina, em nome desse auxílio, que em cada capital de distrito administrativo se estabelecesse uma comissão de cinco membros nomeadas pelo Administrador Geral respectivo, de entre cidadãos de mais reconhecida probidade, zelo e filantropia, de onde sairia o presidente e o secretário. O objectivo era angariar fundos para ajudar os açorianos a reconstruir as suas casas, as suas vidas.

A esta onda de solidariedade e auxílio respondeu a cidade de Leiria.  Em 12 de Julho, reuniram, no Paço Episcopal, os membros nomeados pelo Administrador Geral, José Crisóstomo Pereira Barbosa, Vigário Capitular e Governador Temporal da Diocese (eleito presidente), José de Faria Gomes e Oliveira, João Pessoa de Amorim, Luís Henriques d’Azevedo e António de Abreu Couceiro (eleito secretário). Estava assim constituída, a Comissão do Distrito de Leiria, que de imediato estabeleceu comissões filiais em todos os concelhos. Nas freguesias era aos párocos que cabia angariar fundos junto dos seus fregueses.

O reino atravessava um período difícil com o amargo sabor de uma guerra civil, que trouxe insegurança política, perseguições, surtos de movimentos de guerrilha, vandalismo, destruição, pobreza e desolação.

O aumento da décima e outros tributos, e também os invernos rigorosos e as consequentes más colheitas, provocaram nas populações, enormes dificuldades de subsistência evidenciando, por isso, a falta de condições para colaborar na acção desenvolvida. Azoia, Carvide, Cortes, Maceira, Monte Real, foram as freguesias de Leiria a manifestarem a sua total impossibilidade.

Outrossim de Monte Redondo informava o pároco, que os seus paroquianos não se sentiam devedores da ilha pela atitude tomada durante a guerra civil: vi má dispozicão nos ânimos dos póvos, que se achavam muito onerados com fintas, e tributos.

De Pedrógão Grande, apesar de todas as diligências da sua comissão filial, não conseguiram obter donativos, nem por altura da colheita da azeitona. Também Chão de Couce informou que os seus habitantes estavam condicionados aos rendimentos das colheitas dos seus frutos. Só um ano mais tarde conseguiu reunir alguns donativos.

Alcobaça, Alvaiázere, Batalha, Caldas, Óbidos, responderam de forma satisfatória. Produtos como milho, trigo, cevada, vinho, favas entre outros, eram donativos, que depois de vendidos, acresciam aos donativos em dinheiro.

Em 10 de Setembro já o presidente da Comissão de Leiria tinha em mãos 144$000 reis, disponíveis para serem entregues ao Administrador do Tabaco em Leiria, o meio de remessa utilizado, para o efeito, a pedido do Marquês do Faial, presidente da Comissão de Lisboa.

Todo este processo se prolongou por largos meses, com algumas insistências das Comissões. Várias quantias foram obtidas durante o ano de 1842 e uma última entrega em Maio de 1943, de São Martinho do Porto.

Não apurámos o montante dos donativos conseguidos no nosso distrito, nem esse era o nosso objectivo. Quisemos sublinhar tão só, que apesar de o oceano de permeio, a solidariedade, o espírito de entreajuda, a cooperação entre leirienses e açorianos, tem sido uma constante, como já ficou demonstrado por diversas vezes, na nossa História.

Fontes: Fundo do Governo Civil de Leiria, incorporado no Arquivo Distrital de Leiria

PT/ADLRA/AC/GCLRA/D/031

publicado por Ana às 19:27

 

A memória histórica de um país está no património que se conserva. Monumental, artístico, musical, fotográfico ou documental.

Conhecer essa memória passa não só pela conservação, mas pela organização e divulgação desse mesmo património. Neste contexto e no que se refere ao documental, a nossa experiência tem sido bastante gratificante e tem-nos permitido acrescentar alguns dados novos à história da nossa região.

Foi o caso da Casa do Distrito de Leiria, cuja documentação a partir de 1997 passou a fazer parte do espólio do Arquivo Distrital de Leiria. O trabalho de identificação e organização que desenvolvemos, deu-nos a conhecer uma associação, fundada em 1938 que funcionou na capital, que surgiu de um apelo do então Presidente da Câmara de Leiria, a uma comunidade de leirienses residentes em Lisboa, constituída por pessoas influentes e bem colocadas política, social e economicamente, provenientes dos mais diversos sectores profissionais. Médicos, advogados, notários, oficiais militares, engenheiros, comerciantes, banqueiros, professores, funcionários públicos, escritores, jornalistas, artistas entre outros.

Reuniu pela primeira vez uma Comissão organizadora em 8 de Fevereiro de 1938 no 3º andar do nº 126 da Avenida Duque de Loulé em Lisboa. O Clube dos 100 à Hora foi utilizado também pela referida Comissão até ficar definitivamente instalada na Rua Nova da Trindade no 2º andar do Nº 18, nas dependências da Associação dos Amadores de Música de Lisboa. Teve os seus estatutos aprovados em 21 de Novembro de 1938 por alvará do Governo Civil de Leiria.

Foi o seu primeiro presidente O Contra-Almirante Joaquim de Almeida Henriques, notável pela acção que desempenhou na Marinha e a figura principal do arranque inicial da actividade desta agremiação.

Manteve desde o primeiro dia uma intensa actividade cultural, uma interventiva acção social e uma sistemática pressão junto do poder político. Entre conferências, serões culturais, exposições, bailes, excursões, homenagens, a Casa foi também mentora do I e II Congressos das Actividades do Distrito de Leiria. Esteve ainda na origem da resolução de problemas e situações que muito contribuíram para o progresso da sua região. Cessou em 1953.

Foram suas congéneres, entre muitas outras, a Casa do Alentejo, a Casa de Entre Douro e Minho, a Casa de Lafões, a Casa de Coimbra, Casa das Beiras, a Casa de Tomar, a Casa dos Açores.

Estas agremiações constituíam-se no seio de comunidades regionais, residentes em Lisboa, tendo por base a convivência dos seus patrícios, a divulgação dos seus valores, costumes, riquezas e a defesa dos interesses da sua região, junto do poder político do Estado Novo. Era o regionalismo a acordar reagindo à reforma administrativa consignada no Código de 1936.

A união destas associações, num total de 25000 sócios, deu origem a um movimento do qual nasceu o Conselho Superior do Regionalismo Português, que actuava como uma Federação de todas as Casas Regionais, actuando em sua defesa e representação

As relações entre estas associações eram cordiais e bastante salutares. Convidavam-se a participar das iniciativas de cada uma delas, promoviam sessões e eventos alusivos às regiões das outras Casas.

De entre a documentação da Casa de Leiria recolhemos um convite da Casa dos Açores  datado de 4 de Fevereiro de 1941, que passo a transcrever: Realizando o Sr. Dr. Pedro de Aguiar, ilustre Director dessa Casa, uma conferência no próximo dia 8 do corrente, pelas 22 horas na sede da Casa dos Açôres, sob o titulo “As duas ilhas pequeninas” muito nos honraria V. Exª. com a sua presença e bem assim os restantes Directores da Casa de Leiria. Os sócios da vossa Casa, que queiram assistir, podem faze-lo mediante a simples apresentação do seu bilhete de identidade. À conferência segue-se baile e o traje é de cerimónia. Aproveito o ensejo para endereçar a V. Exª. Os protestos da mais elevada consideração e subscrevo-me. É assinado pelo presidente da direcção Francisco Soares de Lacerda Machado.

No espírito de troca e partilha, as Casas enviavam, anualmente, umas às outras, cartões de livre entrada, para os diversos eventos que organizavam. A exemplo, em 2 de Março de 1951 a Casa do Distrito de Leiria envia à sua homóloga dos Açores, o seu cartão. Assina o presidente da direcção José Rodrigues de Matos.  

Continuamos a constatar que as relações entre Leiria e os Açores são de longa data e que os laços de amizade e cooperação se têm revelado profícuos e de grande significado para as duas regiões.

São estas associações fontes documentais interessantíssimas e a Casa dos Açorespoderá será também, um manancial de surpresas que valeria a pena conhecer.

publicado por Ana às 19:13

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